Tem coisa que a gente espera sem muito alarde — e tem coisa que a gente esperou praticamente a vida toda de fã de jogo. Devil May Cry na Netflix sempre foi uma série com dois nomes pairando sobre ela desde o primeiro trailer: Dante e Vergil. A primeira temporada entregou o primeiro. A segunda, finalmente, entrega o segundo — e entrega direito.

Os oito episódios chegaram ao catálogo dia 12 de maio e eu maratonei em dia e meio. O veredicto rápido: é maior, é mais ambicioso, e Vergil — obviamente — rouba absolutamente todas as cenas em que aparece. Mas tem nuances, e elas importam.

Ficha Técnica

  • Série: Devil May Cry — Temporada 2
  • Plataforma: Netflix
  • Estreia: 12 de maio de 2026
  • Episódios: 8
  • Criador: Adi Shankar
  • Animação: Studio Mir (Coreia do Sul)
  • Vozes: Johnny Yong Bosch (Dante), Robbie Daymond (Vergil), Scout Taylor-Compton (Lady)
  • Classificação: TV-MA
  • Baseado em: Franquia Devil May Cry (Capcom)

De onde viemos — e por que importa antes de começar

A primeira temporada terminou com Dante literalmente congelado em uma instalação da DARKCOM. Mary — a Lady dos games — o colocou em criosuspensão depois de decidir que o sangue demoníaco de Dante e a espada do pai eram poderosos demais para andar soltos pelo mundo. Aí a humanidade, na sua infinita sabedoria, decidiu que congelar o problema era suficiente e declarou guerra ao inferno.

Não é uma boa ideia. A temporada 2 começa exatamente nesse ponto e acelera sem fazer concessões. Com Dante fora de combate, o foco vira para o irmão gêmeo que todo mundo sabia que estava chegando — Vergil, acreditado morto, que sobreviveu abraçando o lado demoníaco da herança dos dois irmãos e agora comanda as forças do inferno numa guerra contra a humanidade que ela mesma iniciou.

Precisa ver a primeira temporada antes? Sim — a segunda não funciona como ponto de entrada. Os arcos da DARKCOM, Lady e o White Rabbit da T1 são a fundação de tudo que acontece aqui. Se você pulou, vai ficar perdido nos primeiros episódios.

Vergil é exatamente o que os fãs queriam — e Robbie Daymond entendeu

Vou ser direta: Vergil sempre foi o personagem mais interessante da franquia. Enquanto Dante é carisma puro e estilo acima de tudo, Vergil é contenção, frieza e uma raiva que vem de um lugar muito específico — a mesma infância, o mesmo trauma, escolhas radicalmente diferentes. Essa dicotomia é o coração da mitologia de Devil May Cry há mais de duas décadas, e Adi Shankar finalmente chegou nela.

Robbie Daymond captura isso de um jeito que eu não esperava. Cada fala de Vergil carrega peso. Ele não precisa gritar pra ser ameaçador. Há uma cena no terceiro episódio — sem spoilers específicos — onde ele confronta um grupo de soldados humanos e não eleva a voz uma vez sequer. A temperatura da cena cai perceptivelmente. É o tipo de performance vocal que você lembra depois de fechar o laptop.

O contexto de por que Vergil está do lado dos demônios faz sentido dentro da lógica da série — e isso é mais difícil de conseguir do que parece.

Jéssica Lopes · GeekFeed
Vergil em cena da segunda temporada de Devil May Cry na Netflix — irmão gêmeo de Dante como comandante das forças demoníacas
IMAGEM · devil-may-cry-s2-vergil.webp · Fonte: Netflix (press kit)

A motivação dele também funciona narrativamente, o que não era garantido. A humanidade atacou o inferno primeiro, de forma brutal e oportunista, e os seres que mais sofreram foram os que tentavam fugir do domínio do Rei Mundus — não invadir a Terra. Vergil viu isso e escolheu um lado. Eu entendo completamente, e essa é provavelmente a parte mais bem escrita da temporada.

Trailer oficial — Devil May Cry Temporada 2 | Netflix Anime

O Studio Mir entregou — e desta vez sem economizar

Adi Shankar descreveu a segunda temporada como "ordens de magnitude maior em escopo e escala" em entrevistas antes da estreia. É uma afirmação grande, mas o Studio Mir sustenta. As sequências de combate dos últimos três episódios especificamente são um salto perceptível em relação à primeira temporada — mais fluidas, com mais leitura espacial, com enquadramentos que comunicam escala sem precisar de CGI pesado para compensar.

A animação de luta entre Dante e Vergil que aparece no trailer não é marketing enganoso: está no produto final e funciona como deveria. Dois personagens com estilos completamente diferentes, com pesos diferentes no movimento, com filosofias de combate opostas — e isso aparece em cada frame da cena. É o tipo de coisa que faz você pausar pra assistir de novo imediatamente.

Onde a temporada perde fôlego

Maior nem sempre é melhor, e oito episódios continuam sendo oito episódios. Alguns arcos secundários claramente foram comprimidos além do que deveriam. Lady — que teve um desenvolvimento bonito e contraditório na primeira temporada — aparece aqui principalmente como peça de plot. Ela reage aos eventos em vez de gerá-los, e isso é uma regressão notável pro personagem. Scout Taylor-Compton tem capacidade pra muito mais, e o roteiro não entrega.

O ritmo dos dois primeiros episódios também é irregular — a série demora pra reestabelecer o estado do mundo depois do cliffhanger da T1, e há um excesso de exposição que poderia ter sido mais elegante. Quem está chegando empolgado do trailer vai sentir que o motor tarda a engatar.

Vale a pena assistir?

Sim — especialmente se você terminou a primeira temporada querendo mais. A segunda entrega o confronto que todo fã de Devil May Cry esperava, com animação mais polida e uma proposta narrativa mais ambiciosa. Não é perfeita: sente-se claramente que certos personagens precisariam de mais tempo, e o início oscila antes de a série encontrar o próprio ritmo.

Mas quando funciona — e funciona bastante, especialmente na segunda metade — é exatamente o tipo de anime de ação adulto que a Netflix vinha prometendo entregar desde Castlevania. Vergil sozinho já justifica a maratona. Agora é esperar e torcer pra que a plataforma renove pra uma terceira temporada sem fazer a gente esperar outros quatro anos desta vez.