Antes de o despertador ser o celular, antes de o YouTube existir, o relógio da minha infância era o SBT. Não era a hora certa que importava — era o desenho que estava passando. Se o Pica-Pau já tinha dado a primeira risada estridente, dava tempo de tomar café com calma. Se o Bom Dia & Cia já estava chamando o próximo bloco, era corre pro ônibus. A manhã inteira funcionava assim, medida em episódios de dez minutos, e nenhum de nós achava aquilo estranho. Era só como o mundo funcionava.

O engraçado é que boa parte daqueles desenhos não era nova nem quando chegou até a gente. Muitos já tinham vinte, trinta anos de estrada quando o SBT os colocou no ar de manhã. Só que ninguém avisou a criança de sete anos que aquilo era "desenho antigo" — pra gente, era estreia, porque era a primeira vez. E é exatamente essa mistura de coisa velha com sensação de novidade que faz esse período ser tão difícil de explicar pra quem não viveu.

O ritual tinha um nome: Bom Dia & Cia

O coração das manhãs do SBT estreou em 2 de agosto de 1993, com uma apresentadora de 21 anos que ninguém ainda conhecia direito: a Eliana. O Bom Dia & Cia não era um auditório barulhento como os concorrentes — era montado como uma "casa", com a Eliana sentada numa mesa conversando com personagens como o computador Flitz, dando aulinha de inglês, fazendo experiência com material reciclado. Entre um quadro e outro, ela "chamava" os desenhos. Era a moldura em volta de tudo.

Esse formato meio caseiro, meio educativo, é o que deixou o programa com uma cara diferente. Depois vieram outras fases e outros apresentadores — a Jackeline Petkovic no fim da década, e mais tarde a dupla Yudi e Priscilla que virou meme com a história do "vale um PlayStation". Mas a espinha dorsal continuou a mesma por mais de trinta anos: acordar o Brasil com desenho. Poucos programas da TV brasileira podem dizer isso.

Ficha técnica — Bom Dia & Companhia

  • Emissora: SBT
  • Estreia: 2 de agosto de 1993
  • 1ª apresentadora: Eliana
  • Formato: Programa infantil matinal em cenário de "casa"
  • Função: Elo entre os blocos de desenhos animados da manhã

Pica-Pau: o pássaro que era a cara das manhãs

Se existe um personagem que virou sinônimo de manhã de SBT, é ele. O Pica-Pau — o Woody Woodpecker original da Universal, criado lá em 1940 pelo Walter Lantz — teve no Brasil uma segunda vida que superou de longe a fama que tinha nos Estados Unidos. Aqui ele foi rei. Aquela risada em cinco notas ("ah-ah-ah-AH-ah") era praticamente um alarme nacional, e a mania do bicho de aprontar com o urso Leôncio ou o caçador atrapalhado nunca cansava, mesmo depois da décima reprise.

Confesso que o Pica-Pau não é o desenho mais bem escrito dessa lista — a lógica dele é a mesma perseguição maluca repetida à exaustão. Mas ele tem uma coisa que poucos têm: virou memória afetiva coletiva de um país inteiro. Você fala "Pica-Pau" pra qualquer brasileiro que hoje tem entre 30 e 45 anos e o cérebro dessa pessoa já ouve a risada. Isso não é pouca coisa. Isso é o desenho ter deixado marca.

Pica-Pau (Woody Woodpecker) da Universal em episódio clássico exibido nas manhãs do SBT nos anos 90
IMAGEM · desenhos-manha-sbt-anos-90-picapau.webp · Fonte: Universal / Walter Lantz (arquivo)

Onde assistir hoje: o Pica-Pau saiu da TV aberta em 2023, mas os clássicos continuam circulando em canais gratuitos e no canal oficial no YouTube, que reúne compilações dubladas. A fase mais recente, O Novo Show do Pica-Pau, aparece no catálogo do Prime Video.

Tom & Jerry: a aula de comédia sem uma palavra

Tem desenho que envelhece. E tem Tom & Jerry, que simplesmente não. Criado por William Hanna e Joseph Barbera ainda nos anos 1940 para a MGM, o gato e o rato mais famosos do mundo fazem uma coisa raríssima: contam histórias inteiras, com começo, tensão e desfecho, quase sem falar uma palavra. É comédia física no estado mais puro — timing, exagero, cara de dor. Uma criança de três anos ri. Um adulto de quarenta ri pelos motivos técnicos. Todo mundo ri.

Eu ponho a mão no fogo por esse aqui. De todos os desenhos das manhãs do SBT, Tom & Jerry é o que eu revejo hoje sem nenhuma vergonha nem aquela sensação de "ah, era melhor na lembrança". Continua funcionando exatamente igual. A animação da era de ouro da MGM é caprichada de um jeito que a gente não valorizava com sete anos — repara na fluidez do movimento, nos cenários pintados à mão. É de chorar de bonito.

Tom e Jerry, o gato e o rato da MGM, em cena clássica de perseguição exibida nas manhãs do SBT
IMAGEM · desenhos-manha-sbt-anos-90-tomejerry.webp · Fonte: MGM / Warner Bros. (arquivo)

Pernalonga e a turma Looney Tunes

Se o Pica-Pau era o barulho e o Tom & Jerry era a elegância silenciosa, o Pernalonga era a esperteza. O Bugs Bunny da Warner, com aquele "o que é que há, velhinho?" e a cenoura entre os dentes, liderava uma trupe que passava aos montes nas manhãs: Patolino, Piu-Piu, Frajola, Gaguinho, Hortelino Troca-Letras. Os Looney Tunes eram um universo inteiro de personagens que a gente conhecia pelo nome, pela mania, pelo bordão.

E é aqui que eu me entrego: o Pernalonga é o meu favorito de toda essa lista. Sempre foi. Tem algo no jeito dele de resolver tudo na malandragem, sem nunca perder a pose, que me pega até hoje. Ele não corre atrás — os outros é que se enrolam tentando pegar ele. Enquanto o Patolino explodia de raiva e o Hortelino perdia a linha, o Pernalonga só mastigava a cenoura e observava. Cresci querendo ter metade dessa tranquilidade. Ainda quero.

Pernalonga e personagens da turma Looney Tunes da Warner Bros exibidos nas manhãs do SBT
IMAGEM · desenhos-manha-sbt-anos-90-looney.webp · Fonte: Warner Bros. (arquivo)

A escola Hanna-Barbera: Scooby-Doo e a Corrida Maluca

Tem um som de manhã de férias que é o Scooby e o Salsicha fugindo de um fantasma que no fim das contas era o zelador fantasiado. O Scooby-Doo ensinou uma geração inteira que monstro nenhum é de verdade — é sempre um velho ranzinza querendo assustar os outros pra roubar um terreno. É praticamente a primeira lição de ceticismo que muita gente teve, embrulhada em van psicodélica e sanduíche gigante.

E do mesmo balcão da Hanna-Barbera vinha a Corrida Maluca, com o Dick Vigarista e aquele cachorro que ria fungando, o Muttley — talvez o vilão mais divertido de perder que já existiu. Nunca ganhava. Sabotava todo mundo, trapaceava em cada curva, e mesmo assim cruzava a linha de chegada em último. Havia uma justiça poética naquilo que, olhando agora, era genuinamente bem construída. Eu torcia pra ele. Eu ainda torço.

A esquina Disney e a virada do milênio

Conforme os anos 90 foram avançando, o SBT também abriu espaço pra blocos de animação mais "moderna", muita coisa da Disney: Tico e Teco e os Defensores da Lei, as Gárgulas — que, sinceramente, eram sombrias demais pra um desenho de manhã e por isso mesmo inesquecíveis — e séries como Doug, com aquela estética esquisita e cor-de-rosa que só quem viveu vai entender. Era uma outra pegada, mais narrativa, menos perseguição de bicho, e marcou a transição pra molecada que ia virar adolescente já nos anos 2000.

Uma ressalva honesta, porque detalhe importa: o grande boom dos animes no Brasil — Os Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Dragon Ball — foi mais território da extinta Rede Manchete e da Band do que do SBT das manhãs. O SBT teve seus flertes com o Japão em algumas fases, mas o DNA da manhã dele sempre foi mesmo o coelho, o gato e o pássaro: a turma americana clássica. Vale dizer isso porque a memória prega peças e junta tudo no mesmo balaio — e cada um desses desenhos merece ser lembrado no lugar certo.

Onde assistir cada clássico hoje

A boa notícia pra quem bateu a saudade: quase tudo está a um clique de distância — a maior parte, inclusive, dublada. O mapa de 2026 ficou mais ou menos assim:

O guia rápido de streaming:

  • Tom & Jerry, Pernalonga / Looney Tunes, Scooby-Doo e Corrida Maluca — todos na HBO Max, que hoje é a casa do acervo Warner e Hanna-Barbera. Tom & Jerry também pinta de tempos em tempos no catálogo da Netflix.
  • Pica-Pau — episódios clássicos dublados no canal oficial do YouTube e em canais gratuitos; a série nova está no Prime Video.
  • Tico e Teco, Gárgulas e clássicos Disney — no Disney+.
  • Bônus anime, pra quem também cresceu com eles: Os Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball estão na Crunchyroll; Sailor Moon circula de graça no Pluto TV.

É quase perturbador ter, na palma da mão, tudo aquilo que a gente precisava acordar cedo e torcer pra pegar no horário certo. A criança de 1997 não acreditaria. Ela esperava a semana inteira pelo episódio; você hoje tem o acervo inteiro esperando por você, a qualquer hora, sem intervalo comercial da margarina.

Talvez seja por isso que revisitar esses desenhos hoje mexe tanto. Não é só a animação — é a lembrança do tempo em que ver desenho tinha hora, tinha ritual, tinha aquela ansiedade gostosa de não perder. A gente não sente falta só do Pica-Pau. A gente sente falta de quem a gente era quando ria dele de pijama, com a mochila já nas costas e o ônibus quase chegando.