A fama de Tolkien é injusta com o próprio Tolkien. Ela gira toda em torno do Senhor dos Anéis e do Hobbit, e o resto da obra dele vira nota de rodapé — quando devia estar na prateleira principal. Porque esse "resto" tem alguns dos textos mais divertidos e mais pessoais que ele escreveu. São livros pequenos, muitos deles feitos para crianças de verdade, não para preencher um mapa da Terra-Média.
Eu cheguei no Roverando por acaso, caçando presente de aniversário para a minha sobrinha. Li antes de embrulhar. Fiquei três semanas com o livro. A sobrinha ganhou outra coisa e eu não devolvi. Sem arrependimento.
Se você nunca passou dessa fronteira da obra do Tolkien — ou tem uma criança em casa que já devorou o Hobbit e pede mais —, é por aqui que eu começaria. Também vale dar uma olhada nos 7 melhores livros de fantasia épica depois, para ver o quanto o Tolkien maior deve a esse Tolkien menor.
Sobre os links: os botões levam direto para a página de cada livro na Amazon. São só recomendações minhas — comprei e li todos. Os preços mudam, então confirma o valor na hora da compra.
1Roverando — o livro que nasceu de um cachorro perdido na praia
J.R.R. Tolkien · HarperCollins Brasil · escrito em 1927 · Ilustrações do próprio Tolkien

Por volta de 1925, a família estava de férias na praia quando Michael, um dos filhos de Tolkien, perdeu o cachorrinho de brinquedo que carregava para todo lado. O menino ficou inconsolável. Outro pai teria comprado um igual na primeira loja. Tolkien inventou uma história sobre o que tinha acontecido com o brinquedo.
Roverando é essa história: um cachorro de verdade, o Rover, que um feiticeiro mal-humorado transforma em brinquedo. Para desfazer o feitiço, Rover tem que reencontrar o mago — e nessa busca ele para na Lua, no fundo do mar e em cantos que o próprio Tolkien parece estar inventando ali, na hora, à medida que escreve.
As ilustrações são do próprio Tolkien, e só isso já pagaria a leitura. Mas o que me pegou foi o tom. É o Tolkien relaxado, sem o peso épico do Senhor dos Anéis nas costas — engraçado, leve, inventivo sem precisar de um universo inteiro para sustentar a brincadeira. É o meu favorito da lista. Nem penso duas vezes.

A aventura do cachorrinho Rover pela Lua e pelo fundo do mar. Com ilustrações originais do próprio Tolkien.
2Ferreiro do Bosque Maior — sobre o que a magia nos exige
J.R.R. Tolkien · HarperCollins Brasil · 1967 · Ilustrações de Pauline Baynes

Bosque Maior é uma aldeia inglesa famosa pela cozinha. A cada 24 anos, o Mestre Cozinheiro prepara um Grande Bolo para as crianças da vila, e esconde nele uma estrela mágica. Quem engole a estrela por engano ganha passagem para Feéria, o Reino Perigoso das fadas.
Um menino engole a estrela. Cresce, vira ferreiro e passa décadas entrando e saindo de Feéria, vivendo aventuras que mais ninguém consegue ver. Até que chega a hora de devolver a estrela — e é aí que Tolkien escreve uma das coisas mais bonitas que já pôs no papel sobre receber um dom e ter que abrir mão dele.
Esse eu indico para o adulto tanto quanto para a criança. Por fora, parece conto de fadas simples. Por dentro, é denso e melancólico de um jeito que só bate na releitura, anos depois. E as ilustrações são de Pauline Baynes, a mesma das Crônicas de Nárnia — cada página parece pintada à mão com um cuidado quase exagerado. Vale cada centavo.

O conto sobre a estrela mágica, o reino das fadas e o preço de um dom extraordinário. Ilustrado por Pauline Baynes.
3Mestre Giles d'Aldeia — o fazendeiro que venceu um dragão por acidente
J.R.R. Tolkien · HarperCollins Brasil · 1949 · Ambientado na Inglaterra medieval

Tolkien escondia um senso de humor afiado debaixo de todo aquele épico. Em Mestre Giles d'Aldeia, ele solta esse humor sem nenhum filtro.
A história se passa num vale da Inglaterra medieval onde ainda sobram gigantes e dragões. O herói, Mestre Giles, é um fazendeiro gordo e covarde, sem uma única qualidade heroica no currículo. Por puro acaso e sorte grande — mais um cachorro fofoqueiro chamado Garm e uma espada mágica, a Caudimordax (ou Morde-cauda, dependendo da tradução) —, ele acaba sendo o único capaz de encarar o dragão Chrysophylax e volta para casa com uma fortuna absurda.
É uma sátira dos contos de cavalaria, escrita com o mesmo amor que Tolkien tinha pelo gênero que estava sacaneando. Você ri do começo ao fim e ainda fecha o livro com a sensação de ter lido algo esperto. A partir dos 8 anos a criança pega todas as piadas. Para o adulto que curte fantasia com humor, é achado.

A comédia medieval de Tolkien — um fazendeiro covarde, um dragão ganancioso e a espada mais mal-humorada da literatura.
4Árvore e Folha — para entender como Tolkien pensava sobre criar mundos
J.R.R. Tolkien · HarperCollins Brasil · ensaio + conto

Esse é o mais fora da curva da lista. Não é exatamente um livro infantil, mas é o que eu colocaria na mão de qualquer pessoa que queira entender por que Tolkien escrevia do jeito que escrevia.
Árvore e Folha junta o ensaio "Sobre Histórias de Fadas" — em que Tolkien argumenta que fantasia não é fuga, e sim uma forma de enxergar o mundo com mais nitidez — e o conto "Folha por Migalha" (ou "Folha de Niggle", conforme a tradução), sobre um pintor que passa a vida inteira tentando terminar um quadro que nunca fica pronto.
"Folha por Migalha" é talvez o texto mais pessoal que Tolkien escreveu. Niggle é ele, escancarado: um criador obcecado por detalhe, incapaz de fechar a obra grande, que deixa só fragmentos para trás. Você lê e entende na hora de onde vieram o Silmarillion e o Livro dos Contos Perdidos — todas aquelas histórias que ficaram pela metade.
Dica de leitura: comece pelo conto "Folha por Migalha" e só depois vá para o ensaio "Sobre Histórias de Fadas". A ordem contrária funciona na teoria, mas dessa forma o ensaio fica muito mais vivo — você lê a tese do Tolkien já tendo sentido na pele o que ele está tentando descrever.

O ensaio sobre fantasia + o conto mais pessoal de Tolkien. Para entender de onde veio tudo que ele criou.
Existe um Tolkien que ninguém leu — e ele cabe na bolsa, custa menos de R$ 35 e vai ficar na sua cabeça por semanas.
— Jéssica Lopes · GeekFeed
Por onde começar?
Comprando para uma criança, comece pelo Roverando: é o mais leve, o mais divertido e traz as ilustrações do Tolkien. Para as maiores, dos 9-10 anos em diante, Mestre Giles d'Aldeia é o mais fácil de emplacar e o que mais arranca gargalhada.
Se você é adulto e quer se enfiar de vez nesse canto da obra, a ordem que eu faria é Ferreiro do Bosque Maior → Árvore e Folha → Roverando de novo. Cada camada abre mais na segunda passada. E se depois bater vontade de encarar os volumões, tenho uma lista das melhores fantasias épicas de todos os tempos esperando por você.
O fio que costura esses quatro é que Tolkien escreveu todos sem a pressão de erguer um legado. São textos soltos, feitos às vezes só para consolar um filho ou testar uma ideia boba. Talvez seja por isso que soam tão humanos.



