Tem um problema sério com a fama de Tolkien: ela se concentra tão pesado no Senhor dos Anéis e no Hobbit que o resto da obra do homem vira literalmente uma nota de rodapé. E esse "resto" inclui alguns dos textos mais gostosos, mais inventivos e mais pessoais que ele escreveu na vida. Menor em escala, maior em charme — e boa parte deles foi escrita para crianças de verdade, não como exercício de worldbuilding.
Eu descobri Roverando por acaso, procurando presente de aniversário para a sobrinha. Acabei lendo antes de dar. Fiquei com o livro por três semanas. Minha sobrinha ganhou outro presente. Não me arrependo.
Se você ainda não mergulhou nessa parte da obra de Tolkien — ou se tem uma criança em casa que já esgotou o Hobbit e quer mais —, esse guia é pra você.
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1Roverando — o livro que nasceu de um cachorro perdido na praia
J.R.R. Tolkien · Martins Fontes · 1927 (publicado em 1998 no Brasil) · Ilustrações do próprio Tolkien
Por volta de 1925, a família Tolkien estava de férias na praia quando o filho Michael perdeu seu cachorrinho de brinquedo favorito. O menino ficou inconsolável. E Tolkien, sendo Tolkien, não foi buscar um substituto na loja — ele inventou uma história sobre o que teria acontecido com o brinquedo.
O resultado foi Roverando: a aventura de um cachorrinho real chamado Rover que foi transformado em brinquedo por um feiticeiro mal-humorado. Para desfazer o feitiço, Rover precisa encontrar o mago novamente — e no meio dessa busca acaba parar na Lua, no fundo do mar e em lugares que o próprio Tolkien parecia estar descobrindo enquanto escrevia.
O livro tem as ilustrações feitas pelo próprio Tolkien, e isso já valeria a leitura. Mas o que me prendeu mesmo foi o tom — é Tolkien em modo completamente descomprimido, sem a gravidade épica que ele carrega no Senhor dos Anéis. Aqui ele é engraçado, leve, inventivo sem precisar construir um universo inteiro. É o meu favorito desta lista, sem hesitar.

A aventura do cachorrinho Rover pela Lua e pelo fundo do mar. Com ilustrações originais do próprio Tolkien.
2Ferreiro do Bosque Maior — sobre o que a magia nos exige
J.R.R. Tolkien · Martins Fontes · 1967 · Ilustrações de Pauline Baynes
Em Bosque Maior — uma cidadezinha inglesa famosa pela culinária — o Mestre Cozinheiro prepara a cada 24 anos um Grande Bolo para ser distribuído entre as crianças. Dentro do bolo há uma estrela mágica. Quem engolir a estrela por engano ganha acesso ao Reino Perigoso — Feéria, a terra das fadas.
Um menino acaba engolindo a estrela. Cresce, se torna Ferreiro, e por décadas entra e sai de Feéria vivendo aventuras que ninguém mais pode ver ou compreender. E chega um momento em que ele precisa devolver a estrela — e então a história se torna uma das mais belas coisas que Tolkien escreveu sobre o que significa ter um dom e ter que abrir mão dele.
Eu indico este para quem já é adulto tanto quanto para crianças. A aparência é de conto de fadas simples; o interior é denso e melancólico de um jeito que só aparece quando você relê anos depois. Pauline Baynes — que também ilustrou as Crônicas de Nárnia — fez o trabalho de ilustração e cada página parece pintada à mão com cuidado excessivo. Vale muito.

O conto sobre a estrela mágica, o reino das fadas e o preço de um dom extraordinário. Ilustrado por Pauline Baynes.
3Mestre Giles d'Aldeia — o fazendeiro que venceu um dragão por acidente
J.R.R. Tolkien · Martins Fontes · 1949 · Ambientado na Inglaterra medieval
Tolkien tinha um senso de humor que ele escondia bem embaixo do épico. Mestre Giles d'Aldeia é onde esse humor aparece sem filtro nenhum.
A história se passa num vale da Inglaterra medieval onde ainda existem gigantes e dragões. O herói, Mestre Giles, é um fazendeiro gordo, covarde e completamente desprovido de qualquer atributo heroico. Por uma série de acidentes e boas sortes — incluindo um cachorro chamado Garm e uma espada mágica chamada Caudimordax (ou Morde-cauda, dependendo da tradução) — ele acaba sendo o único capaz de domar o dragão Chrysophylax e sair com uma fortuna absurda.
É uma sátira de contos de cavalaria medievais escrita com o mesmo amor que Tolkien tinha pelo gênero. Você ri durante toda a leitura e termina com a sensação de ter lido algo genuinamente inteligente. Para crianças a partir dos 8 anos funciona muito bem — para adultos que gostam de fantasia com humor, é uma descoberta.

A comédia medieval de Tolkien — um fazendeiro covarde, um dragão ganancioso e a espada mais mal-humorada da literatura.
4Árvore e Folha — para entender como Tolkien pensava sobre criar mundos
J.R.R. Tolkien · WMF Martins Fontes · 1945 · Ensaio + conto
Este é o mais diferente da lista — não é bem um livro infantil, mas é o que eu indicaria para qualquer pessoa que quer entender por que Tolkien escrevia do jeito que escrevia.
Árvore e Folha reúne o ensaio "Sobre Histórias de Fadas" — onde Tolkien defende que fantasia não é escapismo, mas uma forma de ver o mundo com mais clareza — e o conto "Folha por Migalha" (ou "Folha por Niggle", no original), a história de um pintor que passa a vida inteira tentando terminar um quadro que nunca consegue completar.
"Folha por Migalha" é talvez o texto mais pessoal que Tolkien escreveu. Niggle é claramente ele mesmo — um criador obcecado com detalhes, incapaz de terminar a obra maior, que acaba deixando apenas fragmentos para o mundo. Você lê e entende de onde veio o Silmarillion, o Livro dos Contos Perdidos, todas aquelas histórias que ficaram incompletas.
Dica de leitura: Leia primeiro o conto "Folha por Migalha" e só depois o ensaio "Sobre Histórias de Fadas". A ordem inversa funciona academicamente, mas a ordem que recomendo deixa o ensaio muito mais vivo — você vai ler a teoria de Tolkien com os olhos de quem já sentiu o que ele está tentando descrever.

O ensaio sobre fantasia + o conto mais pessoal de Tolkien. Para entender de onde veio tudo que ele criou.
Existe um Tolkien que ninguém leu — e ele cabe na bolsa, custa menos de R$ 35 e vai ficar na sua cabeça por semanas.
— Jéssica Lopes · GeekFeed
Por onde começar?
Se você está comprando para uma criança, começa por Roverando — é o mais leve, mais divertido e tem as ilustrações do Tolkien. Para crianças maiores (a partir dos 9-10 anos), Mestre Giles d'Aldeia é o mais acessível e o que mais vai arrancar gargalhadas.
Se você é adulto e quer mergulhar nesse lado da obra, a ordem que eu faria é: Ferreiro do Bosque Maior → Árvore e Folha → Roverando (releitura). Você vai entender cada camada melhor do que na primeira passagem.
O que todos esses livros têm em comum é que Tolkien os escreveu sem a pressão de construir um legado. São textos soltos, inventados às vezes para consolar um filho ou para testar uma ideia. E talvez seja exatamente por isso que eles soam tão humanos.



