Confesso: eu era uma jogadora terrível de The Sims. E digo isso com orgulho. Passava a primeira hora inteira construindo a mansão — parede aqui, tapete ali, aquela escada em L que nunca ficava do jeito que eu queria — e a segunda hora afogando o coitado do Sim numa piscina sem escada pra sair. Você sabe exatamente do que eu tô falando. Se você jogou The Sims na virada dos anos 2000, provavelmente cometeu esse mesmo pequeno assassinato doméstico pelo menos uma vez.
O motivo de eu estar remoendo tudo isso agora é simples: The Sims completou 25 anos, e a Electronic Arts trouxe o jogo original de volta numa versão remasterizada que roda liso no PC moderno. Não é lembrança fofa de época que ficou presa num CD arranhado dentro de uma gaveta. É o jogo, de verdade, rodando no Windows 11 enquanto eu escrevo isso. E ele envelheceu de um jeito que quase nenhum game de 2000 conseguiu.
Um incêndio, uma casa de bonecas e o jogo que ninguém queria
Vale contar de onde isso tudo veio, porque a história é bem mais estranha do que parece. Em 1991, o designer Will Wright — o cara por trás de SimCity — perdeu a própria casa num incêndio que devastou a região de Oakland, na Califórnia. Tendo que reconstruir tudo do zero, comprar móvel por móvel, refazer a vida material peça por peça, ele teve o estalo: e se isso virasse um jogo? Uma espécie de casa de bonecas virtual, onde a graça fosse justamente cuidar da rotina banal de pessoas de mentira.
A Maxis achou a ideia horrível. Sério. Nos grupos de teste dos anos 90, o projeto era zombado como "o jogo em que você limpa o vaso sanitário". Ninguém via futuro naquilo. Wright bateu o pé por anos, e só depois que a EA comprou a Maxis, em 1997, é que a diretoria nova enxergou o potencial. Boa aposta: quando The Sims chegou às lojas em 4 de fevereiro de 2000, virou o jogo de PC mais vendido do ano e passou de 15 milhões de cópias. O "joguinho do vaso sanitário" redefiniu o que simulação podia ser.
Não tinha fase pra passar, não tinha chefão, não tinha final. E foi exatamente por isso que a gente não largava.
— Jéssica Lopes · GeekFeed
É aí que mora a genialidade da coisa. The Sims não te dava objetivo nenhum. Você que decidia se ia formar uma família feliz, virar milionário, ou fazer o que eu fazia — engenharia social sádica com paredes e piscinas. O jogo era um brinquedo, no sentido mais puro da palavra, e cada pessoa brincava do seu jeito. Tinha quem recriasse a própria casa. Tinha quem recriasse o crush da escola pra fazer ele se apaixonar. Sem julgamento. (Muito julgamento.)
O que a gente realmente lembra de The Sims
Passados 25 anos, não é a jogabilidade que a memória guarda com mais carinho. É o resto. É o pacote sensorial inteiro que ficou grudado na cabeça de uma geração.
O Simlish, pra começar — aquela língua inventada de "sul sul!" e "vadash!" que os personagens balbuciavam e que a gente jurava entender. As necessidades apitando em vermelho enquanto o Sim fazia xixi no chão da sala porque você esqueceu de construir banheiro. O carro do serviço social levando as crianças embora quando a barra de humor despencava. E, claro, aquela música do Modo Compra e do Modo Construção, o jazz preguiçoso de piano que tocava enquanto você gastava horas escolhendo o sofá. Gente, essa trilha vive rent-free na minha cabeça até hoje.


E tinha os cheats, o verdadeiro idioma secreto da criançada. Rosebud — a senha que todo mundo decorou antes de decorar a tabuada. Digitava e ganhava mil simoleons na hora. Os mais espertos descobriram que dava pra emendar rosebud;!;!;! e encher a conta bancária de uma vez só. Quem preferia pilotar a versão antiga usava klapaucius, que fazia a mesma mágica. Ninguém nessa época jogava The Sims honestamente, e tá tudo bem.
Sabe o que me pega de verdade quando penso nisso? The Sims foi, pra muita gente, o primeiro contato com a ideia de autoria. Você não consumia uma história pronta — você fabricava a sua. Antes de "conteúdo gerado por usuário" virar termo de marketing, milhões de crianças e adolescentes já estavam construindo mundos inteiros num PC de tubo. Isso não é pouca coisa.
The Sims voltou: o que é a Legacy Collection
Agora a parte que interessa a quem tá com aquela coceira de reinstalar a infância. Em janeiro de 2025, dentro das comemorações dos 25 anos da franquia, a EA lançou a The Sims Legacy Collection — o jogo original devidamente remasterizado pra rodar em máquina de hoje, sem gambiarra, sem patch de fórum, sem rezar pro executável abrir.
E o melhor: não é só o jogo-base pelado. A coleção vem com as sete expansões juntas, o pacote completo que na época custava uma fortuna em CDs separados: Livin' Large, House Party, Hot Date, Vacation, Unleashed, Superstar e Makin' Magic. Tudo num download só. A Hot Date, pra quem não lembra, foi a que revolucionou permitindo levar o Sim pra fora do lote, pro Centro, namorar num restaurante. A Makin' Magic trazia magia. Era conteúdo pra meses.

Ficha técnica — The Sims Legacy Collection
- Desenvolvedora: Maxis / Electronic Arts
- Criador: Will Wright
- Original: 4 de fevereiro de 2000
- Remaster: 31 de janeiro de 2025
- Inclui: Jogo-base + 7 expansões
- Plataformas: Steam · EA App · Epic Games Store
- Sistema: Windows 10 e 11
- Preço: US$ 19,99 (cerca de R$ 100)
O que a EA prometeu — e, pelo que joguei, cumpriu — foi mexer no motor sem mexer na alma. A engine de renderização foi atualizada, agora tem escala de resolução decente pra monitor grande (nada de jogo espremido num quadradinho no meio da tela 4K) e, milagre dos milagres, suporte nativo à roda do mouse pra dar zoom. Fora isso, é o mesmo The Sims tosco e adorável de sempre. Os gráficos continuam pixelados do jeito que a memória pede. Não tentaram "melhorar" o que não precisava.
Se você quer minha opinião honesta: os 25 anos ficaram muito melhor no The Sims 1 do que em quase qualquer clássico da mesma idade. Não porque o jogo seja tecnicamente impressionante hoje — ele não é —, mas porque a ideia central dele era atemporal desde o começo. Cuidar de gente de mentira nunca sai de moda.
Como jogar The Sims 1 hoje, passo a passo
Chega de saudade, vamos à prática. A boa notícia é que nunca foi tão fácil. Você não precisa mais caçar ISO em site duvidoso nem instalar meia dúzia de patches de compatibilidade. Compra e joga.
O caminho mais simples:
- Abra a Steam, a EA App ou a Epic Games Store e procure por "The Sims Legacy Collection".
- Custa cerca de US$ 19,99 (cheque o preço em reais na sua região — costuma sair perto de R$ 100). Fica de olho nas promoções: já rolou desconto de 50%.
- Baixe, instale e pronto. Já vem tudo configurado pro Windows 10 e 11, com as sete expansões incluídas. Sem patch, sem dor de cabeça.
Instalou? Então recupera o essencial. O console de cheats abre com Ctrl + Shift + C. Digitou, apareceu a barrinha em cima. As senhas que importam:
Os cheats que valem a pena decorar de novo:
-
rosebud — dá 1.000 simoleons na versão atual. Emende
rosebud;!;!;!pra multiplicar (cada "!" vale mais 1.000). -
motherlode — o clássico dos clássicos, 50.000 simoleons de uma vez.
-
klapaucius — a senha original de dinheiro; funciona em versões sem patch.
Um aviso: alguns cheats antigos podem não pegar nesta remasterização, então testa antes de contar com eles.
Quer ir além do jogo puro? A comunidade de The Sims 1 nunca morreu de verdade, e tem uma cena de custom content (roupas, móveis, texturas feitos por fãs) que continua ativíssima. A Legacy Collection aceita boa parte dos mods clássicos, embora valha conferir guias atualizados da comunidade antes de sair jogando arquivo na pasta — a estrutura mudou um pouquinho com a remasterização.
Dica de nostálgica pra nostálgica: vá até a pasta de instalação e procure o diretório de música. As faixas do jogo, incluindo aquela trilha do Modo Compra que você não consegue tirar da cabeça, ficam ali em MP3. Dá pra colocar pra tocar fora do jogo. Não me julgue por saber disso.
E se você não faz questão nenhuma de pagar? Dá pra matar a saudade de graça direto no navegador, com as versões de The Sims que a comunidade preserva em sites de arquivo de jogos antigos — não é a experiência remasterizada nem legalmente igual à oficial, mas quebra o galho pra uma partida rápida de madrugada movida a impulso.
No fim das contas, o que me deixa feliz não é nem o zoom com scroll ou a resolução 4K. É saber que dá pra sentar de novo, abrir o Modo Construção, ouvir aquele piano, e reviver o ritual sagrado: construir a casa perfeita, mobiliar cada cantinho com carinho, chamar a família toda pra dentro… e então, quem sabe, esquecer de colocar a escada da piscina. Por pura força do hábito.
Você era do tipo que jogava certinho ou do tipo que aprontava? Confessa aí nos comentários — prometo que aqui é território seguro pra ex-vilões de piscina.



