Quando Superman abriu o novo DCU de James Gunn em julho de 2025 com mais de US$ 120 milhões só no fim de semana de estreia americano, a sensação era de que finalmente a DC tinha encontrado o ritmo certo. Menos de um ano depois, Supergirl: Woman of Tomorrow chega aos cinemas e despenca. US$ 38 milhões domésticos, US$ 68 milhões globais — e uma projeção de perda que os analistas de Hollywood estão colocando entre US$ 100 e US$ 125 milhões.
Perdeu o fim de semana para Toy Story 5. Abriu com CinemaScore B—, pior que The Flash e Aquaman and the Lost Kingdom, dois filmes que a própria DC gostaria de apagar da memória. Na Rotten Tomatoes, ficou em 59% entre os críticos — embora o público tenha sido mais generoso, com 77%. É o tipo de divisão que revela um filme que agrada quem já foi comprado pela premissa, mas falha em conquistar quem ainda precisava ser convencido.
Ficha técnica — Supergirl: Woman of Tomorrow
- Título: Supergirl: Woman of Tomorrow
- Estúdio: DC Studios / Warner Bros. Pictures
- Estreia: 26 de junho de 2026 (EUA)
- Orçamento: US$ 170–186 milhões (produção)
- Bilheteria: US$ 38 mi (EUA) · US$ 68 mi (mundial) — fim de semana de estreia
- RT (crítica): 59% · CinemaScore B-
- RT (público): 77%
- Elenco: Milly Alcock (Kara Zor-El), Eva Green (Ruthye), Matthias Schoenaerts (Krem dos Montes Amarelos)
A boa notícia primeiro: Milly Alcock é inegável
Quase toda crítica ao filme — seja positiva ou negativa — chega ao mesmo consenso: Milly Alcock entrega. A atriz australiana, que muita gente conheceu como a jovem Rhaenyra em House of the Dragon, carrega o filme nas costas com presença, intensidade e um timing emocional que o roteiro às vezes nem merece. Ela é uma Kara com peso, não uma versão rosada de Superman com capa vermelha.
O problema é que o filme em torno dela não sustenta o que ela constrói. E aí chegamos nos motivos reais do fracasso.

O vilão que ninguém vai lembrar daqui a três meses
Krem dos Montes Amarelos é o antagonista do filme. No papel, soa interessante — um mercenário brutal inspirado vagamente nos faroestes cósmicos dos quadrinhos de Tom King. Na tela, virou o que várias críticas descreveram como uma variação sem graça de Mad Max, sem profundidade, sem ameaça real e sem nenhum momento que justifique o quanto o filme tenta nos fazer odiá-lo.
Essa é uma falha clássica que o MCU e o próprio DC já repetiram tantas vezes que dá para fazer um curso sobre o assunto: o vilão fraco esvazia a jornada do herói. Se Krem não convence como ameaça, a urgência de toda a narrativa desmorona. E desmoronou.
O vilão determina o teto do herói. Krem dos Montes Amarelos colocou esse teto bem baixo.
— Jéssica Lopes · GeekFeed
Vinte e cinco minutos perdidos — e talvez o filme junto
O dado que mais me preocupa é este: Supergirl passou por mais de 10 exibições de teste — um número anormal até para padrões de grandes blockbusters. O corte inicial tinha mais de 2 horas e 5 minutos. O que chegou às salas tem 1 hora e 47 minutos, incluindo créditos de 7 minutos. Isso significa que quase 25 minutos foram removidos depois de tanta deliberação.
Pior: os executivos chegaram a avaliar três finais completamente diferentes. O mais recente incorporou cenas adicionais com Superman — o que soa menos como decisão criativa e mais como tentativa de segurar o público com um personagem que já provou funcionar.
Quando um filme passa por tantas reescritas de conclusão e perde tanto metragem em edição, o que normalmente acontece é exatamente o que as críticas descreveram: um ritmo irregular, cortes bruscos e uma narrativa que parece ter perdido pedaços de si mesma no caminho. Não é imperceptível — o público sente, mesmo sem saber nomear o que está errado.
O problema do personagem: Supergirl não é Superman
Isso não é demérito — é apenas uma realidade de mercado que a DC Studios parece ter subestimado. Superman tem 88 anos de presença cultural contínua. Batman idem. Supergirl, apesar de existir desde 1959 nos quadrinhos, nunca teve um filme que funcionasse (a versão de 1984 com Helen Slater foi um desastre), e a série da CW terminou em 2021 sem deixar uma legião militante de fãs querendo uma continuação cinematográfica.
Para o grande público — não o fã de HQs que leu Woman of Tomorrow de Tom King — Supergirl é basicamente "a prima do Superman". E uma figura assim precisa de um filme excepcional para vencer esse pré-conceito. Não de um filme que divide críticos 59/41.
Para entender melhor: A HQ Supergirl: Woman of Tomorrow (2021), de Tom King e Bilquis Evely, é excelente e foi a base do roteiro. Se você quiser descobrir o que o filme deveria ter sido, a graphic novel está disponível nas principais livrarias e na Amazon.
A sombra do Toy Story 5 — e a questão do timing
Estrear no fim de semana seguinte a Toy Story 5 — que ficou em primeiro lugar pela segunda semana consecutiva — não foi o melhor movimento de calendário. Pixar e DC não competem exatamente pelo mesmo público, mas famílias que ainda não tinham visto Toy Story 5 foram o principal drive de audiência naquele fim de semana, e Supergirl não tinha força suficiente para criar uma demanda própria que justificasse a prioridade.
Em bilheteria, posicionamento importa. E o DCU, que acabou de reestrear com Superman há menos de um ano, talvez tenha apostado cedo demais numa personagem que ainda precisava de mais tempo de construção — seja numa série de streaming, seja em aparições menores antes do longa solo.
O que isso significa para o futuro do DCU
James Gunn foi ao New York Times explicar por que os resultados de Supergirl não mudam os planos do estúdio — e, honestamente, analistas do mercado concordam que o DCU não está morto por causa disso. Superman funcionou. The Batman continua sendo uma licença sólida. O pipeline ainda inclui títulos com muito mais potencial comercial.
Mas o sinal de alerta está dado. O novo DCU tem uma segunda chance histórica, com um público disposto a tentar de novo. Desperdiçar isso em personagens que ainda não foram estabelecidos com o público geral, sem um filme impecável nas mãos, é um luxo que o estúdio não pode repetir.
Milly Alcock vai voltar como Supergirl em projetos futuros — isso parece garantido. A pergunta é se a DC vai ter aprendido a lição de como apresentar uma heroína ao mundo antes de colocá-la numa missão solo de US$ 186 milhões.
Eu torço que sim. A Kara que Milly construiu merece uma segunda chance melhor do que essa.



