A notícia chegou de surpresa neste domingo (13): Sam Neill morreu em Sydney, aos 78 anos, cercado pela família. E o que mais dói nem é só a perda em si — é a ironia cruel de ter acontecido bem depois dele finalmente vencer a batalha que vinha travando havia anos.

Porque Sam Neill não morreu do câncer. Ele tinha anunciado, em abril deste ano, que estava livre da doença após um tratamento experimental de terapia com células CAR-T. A família disse que a perda foi "repentina e inesperada", mas "abençoada pelo fato de que Sam permaneceu livre do câncer" — e que ele partiu "com a dignidade que caracterizou toda a sua vida". Não foi divulgada a causa específica da morte.

Sam Neill — vida e carreira

  • Nome completo: Nigel John Dermot Neill
  • Nascimento: 14 de setembro de 1947, Omagh, Irlanda do Norte
  • Morte: 13 de julho de 2026, Sydney, Austrália — 78 anos
  • Papel mais icônico: Dr. Alan Grant, emJurassic Park(1993, 2001, 2022)
  • Outros marcos: O Piano,Caçada ao Outubro Vermelho,Horizonte de Eventos,Peaky Blinders

O paleontólogo cético que definiu uma geração inteira

Se você tem entre 30 e 40 anos hoje, dá pra apostar que a primeira vez que viu Sam Neill foi correndo de um Tyrannosaurus rex numa sala de cinema escura — ou, mais provavelmente, numa fita VHS que já tinha sido rebobinada umas cem vezes. O Dr. Alan Grant de Jurassic Park (1993) não era o herói musculoso que a gente esperava de um blockbuster do Spielberg. Era um cara ranzinza, que odiava criança, obcecado por ossos fósseis — e que a gente aprendeu a amar exatamente por isso.

Essa é a genialidade que às vezes esquecemos de credita a Neill: ele fez Alan Grant funcionar como o centro emocional de um filme sobre dinossauros geneticamente ressuscitados. A cena do fóssil de velociraptor, a primeira vez que ele vê um Brachiosaurus vivo e simplesmente esquece como respirar — isso é atuação, não efeito especial. Spielberg sabia o que estava fazendo ao escalar um ator de teatro sério, vindo de dramas como O Piano, para ancorar o filme mais tecnicamente ambicioso da história até então.

Sam Neill como o Dr. Alan Grant, ao lado da cerca elétrica, em cena de Jurassic Park (1993)
IMAGEM · sam-neill-morte-legado-jurassic-park-cena-1993.webp · Fonte: Murray Close/Getty Images, via SYFY

E Neill voltou ao papel duas vezes — em Jurassic Park III (2001) e, quase duas décadas depois, em Jurassic World: Domínio (2022), reunindo o elenco original com Laura Dern e Jeff Goldblum. Confesso que fui assistir esperando nostalgia barata e saí emocionada vendo os três trocando farpas de novo, como se nenhum tempo tivesse passado. Isso é o poder de um ator que construiu um personagem de verdade, não só uma função na trama.

Onde assistir: a trilogia original de Jurassic Park está disponível na Netflix e no Peacock (com catálogo variando por região), enquanto Jurassic World: Domínio está no Prime Video e Universal+. O Piano pode ser encontrado no MUBI, e as três temporadas de Peaky Blinders em que Neill aparece como Chester Campbell estão completas na Netflix.

Bem antes e muito além dos dinossauros

O que sempre me impressionou em Sam Neill é que ele nunca deixou o sucesso de Jurassic Park definir os limites da carreira — coisa rara em Hollywood. Antes de virar Alan Grant, ele já tinha conquistado aclamação como o espião real Sidney Reilly na minissérie britânica Reilly, Ace of Spies (1983), um trabalho que praticamente inventou o gênero de thriller de espionagem prestigioso na TV.

Em 1990, foi o oficial soviético de submarino em Caçada ao Outubro Vermelho, contracenando com Sean Connery. E no mesmo ano de Jurassic Park, ele estrelou O Piano, de Jane Campion, como o marido rígido de Ada, a personagem muda vivida por Holly Hunter — filme que levou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Roteiro Original. Ter lançado, no mesmo ano, o maior blockbuster da história e um dos dramas mais respeitados do cinema independente diz tudo sobre a versatilidade do cara.

Nos anos seguintes ele ainda assombrou geral em Horizonte de Eventos (1997), um dos meus cults de terror espacial favoritos, e, já mais recentemente, encontrou uma nova geração de fãs como o intimidador Inspetor Chester Campbell em Peaky Blinders. Poucos atores conseguem transitar entre blockbuster genuíno, cult de nicho e prestígio televisivo com a mesma naturalidade — e sem nunca soar deslocado em nenhum desses registros.

Ele nunca precisou de dinossauro nenhum pra provar que sabia atuar — mas foi o dinossauro que garantiu que a gente nunca esquecesse dele.

Jéssica Lopes · GeekFeed

A batalha contra o câncer e o livro que quase não existiu

Em março de 2023, Neill revelou publicamente que vinha fazendo quimioterapia desde o ano anterior, após ser diagnosticado com linfoma angioimunoblástico de células T em estágio 3 — um câncer raro no sangue, descoberto depois que ele notou os gânglios inchados durante a divulgação de Jurassic World: Domínio. Ele usou o ano afastado dos sets para escrever o livro de memórias Did I Ever Tell You This?, no qual chegou a escrever que estava "possivelmente morrendo" e que talvez precisasse "acelerar isso". Segundo ele mesmo contou depois, escrever o livro lhe deu "um motivo para viver".

Neste ano, depois que a quimioterapia parou de funcionar, ele passou por uma terapia experimental com células CAR-T em um estudo clínico australiano — e chegou a usar a própria história para defender publicamente mais acesso a esse tipo de tratamento na Austrália e na Nova Zelândia. Em abril, anunciou que os exames não detectavam mais nenhum sinal do câncer. Por isso a notícia deste domingo pegou todo mundo de surpresa: ele tinha, enfim, vencido a parte da história que todos esperávamos que fosse a mais dura.

O que fica: tributos e uma infância inteira

Sam Neill em evento público em 2017, anos depois de estrelar Jurassic Park
IMAGEM · sam-neill-morte-legado-jurassic-park-2017.webp · Fonte: Wikimedia Commons

Colegas de profissão já começaram a se manifestar — Karl Urban, que contracenou com ele em Peaky Blinders, chamou Neill publicamente de "um homem lindo", e a onda de homenagens só cresce nas redes conforme a notícia se espalha pelo mundo. Faz sentido: são quase seis décadas de carreira, um título de cavaleiro concedido pela Nova Zelândia em 2022 e a Ordem do Império Britânico recebida ainda em 1991.

Mas o legado mais bonito, pra mim, é o mais simples: uma geração inteira de gente que hoje tem filho, hipoteca e ansiedade sobre o próprio futuro ainda consegue fechar os olhos e se ver, criança, gritando de emoção quando o Brachiosaurus aparece na tela pela primeira vez — e Sam Neill, com aquele chapéu de safari e aquela cara de quem não acredita no que está vendo, sente exatamente a mesma coisa que a gente sentia sentado na poltrona do cinema.

Se você também cresceu assistindo Jurassic Park até gastar a fita, esse é o momento de rever a trilogia original neste fim de semana — não como dever de casa nostálgico, mas como agradecimento a um ator que emprestou décadas da própria vida pra fazer a gente acreditar em dinossauros.