A Justiça brasileira finalmente colocou um número na conta das loot boxes — e o número é grande. A 1ª Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal condenou onze empresas de tecnologia e desenvolvedoras de games a pagar, somadas, R$ 298 milhões por dano moral coletivo, por causa das caixas de recompensa de conteúdo aleatório vendidas em jogos acessados por crianças e adolescentes. As sentenças saíram no dia 9 de junho, e as decisões ainda cabem recurso.

Quem moveu o processo foi a Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (Anced), em ações civis públicas que tramitam desde 2021. O argumento, em uma frase: loot box funciona na mesma lógica de uma aposta, e ninguém deveria tratar criança como "fonte ilimitada de monetização". A juíza Rejane Zenir, do TJDFT, comprou o argumento — e ainda apontou que isso já era ilegal antes do ECA Digital entrar em vigor, em março deste ano.

A decisão em números

  • Tribunal: 1ª Vara da Infância e da Juventude do DF (TJDFT)
  • Autora: Anced — Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente
  • Empresas: 11 condenadas
  • Valor total: R$ 298 milhões em dano moral coletivo
  • Destino: Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente do DF
  • Processo: 0701554-83.2021.8.07.0013

Quanto cada empresa vai pagar

É aqui que a notícia fica interessante, porque a Justiça não distribuiu o valor por igual. As condenações variam conforme o porte e o alcance de cada empresa, e dá pra ler a lógica nos números: quem opera as lojas que hospedam os jogos levou as maiores multas, ao lado de quem fatura mais alto com a mecânica. A lista abaixo segue a apuração do Tilt UOL, replicada por Tecnoblog e Canaltech:

EmpresaMotivo / produtoMulta
AppleApp StoreR$ 50 mi
MicrosoftMicrosoft StoreR$ 50 mi
TencentPUBG MobileR$ 50 mi
GooglePlay StoreR$ 40 mi
SonyPlayStation NetworkR$ 40 mi
Electronic ArtsFIFA, Apex Legends, Plants vs. ZombiesR$ 20 mi
Riot GamesLeague of LegendsR$ 15 mi
UbisoftRainbow Six SiegeR$ 10 mi
ValveCounter-StrikeR$ 10 mi
KonamiPES, Yu-Gi-Oh! Duel LinksR$ 8 mi
NintendoMario Kart TourR$ 5 mi

Somando tudo, dá os R$ 298 milhões. Vale o aviso de praxe: esses são os valores noticiados pela imprensa especializada a partir da apuração do Tilt UOL — o teor integral de cada sentença não foi publicado na íntegra, e como cabe recurso, nada disso é definitivo. O dinheiro, se confirmado, vai parar no Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente do DF, e só depois do trânsito em julgado.

Imagem do plenário sobre legislação de proteção a menores, contexto do ECA Digital usado na decisão sobre loot boxes
IMAGEM · multa-loot-boxes-brasil-eca-digital-2026.webp · Fonte: Agência Senado via Canaltech

Por que loot box virou caso de Justiça

Confesso que sempre achei estranho como a indústria normalizou isso. Você paga sem saber o que vai receber, a chance real de tirar o item que você quer é controlada pela própria plataforma e raramente exibida, e a recompensa vem em intervalos imprevisíveis — exatamente o mecanismo de reforço intermitente que faz caça-níquel funcionar. Especialistas em saúde mental vêm dizendo há anos que loot box ativa os mesmos circuitos cerebrais de um cassino. A novidade é uma juíza brasileira escrever isso numa sentença.

A decisão se apoia no ECA Digital (Lei nº 15.211/25), em vigor desde março, que reconhece loot boxes como prática ilícita. Mas a juíza foi além: argumentou que o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, já proíbe publicidade abusiva dirigida ao público infantojuvenil — ou seja, isso seria irregular mesmo sem a lei nova. Apple, Google, Microsoft e Sony entraram na ação não por desenvolver os jogos, mas por hospedá-los e dar acesso a eles através de suas lojas.

Além do cheque, as empresas terão de mudar o produto: exibir as probabilidades reais de cada item, deixar explícito o caráter aleatório das recompensas, implementar verificação de idade confiável e criar um sistema de reembolso para compras feitas por menores sem autorização dos responsáveis. Essa parte, pra mim, importa mais que a multa.

O que isso significa pro jogador brasileiro

Multa de R$ 298 milhões soa enorme num título de manchete, mas pra empresas que faturam isso num fim de semana, o valor em si é um arranhão. O que pesa de verdade é o precedente. É a primeira vez que a Justiça brasileira condena, de uma vez, o ecossistema inteiro — das lojas às desenvolvedoras — tratando loot box como o que ela é. Se a decisão se sustentar nos recursos, o jeito como esses jogos operam no Brasil muda, e não só pra quem tem menos de 18 anos.

As empresas vão recorrer, isso é certo. Mas a régua se moveu. Depois da Bélgica e da Holanda, o Brasil acaba de entrar na lista de países que decidiram que a sorte, quando vendida pra criança, tem nome — e agora tem preço.