Tem uma coisa que a maioria das pessoas sabe sobre Milo Manara antes de ler uma página sequer dele: que ele faz quadrinhos eróticos. O que a maioria não sabe é o que vem junto com isso — a precisão anatômica herdada de anos estudando medicina antes de virar desenhista, a influência direta de Fellini no jeito como ele enquadra corpos e espaços, e uma carreira que inclui parcerias com Hugo Pratt, Alejandro Jodorowsky e Neil Gaiman. A palavra "erótico" descreve parte da obra. Não descreve o artista.
Manara nasceu em 1945 em Luson, no norte da Itália, e começou a publicar em 1969. Em mais de cinco décadas de carreira, construiu um vocabulário visual reconhecível à primeira página: linhas limpas, corpos expressivos, um domínio do traço que faz personagens parecerem esculpidos em vez de desenhados. E tem uma qualidade específica no trabalho dele que eu acho subestimada — o humor. Mesmo nas histórias mais carregadas, há uma ironia discreta que impede a seriedade de virar solenidade.
As obras que definiram a carreira
O Click (1983) foi o divisor de águas. A história de uma mulher que perde o controle do próprio desejo depois de um dispositivo ser implantado nela gerou escândalo, prêmios, três sequências e uma adaptação cinematográfica francesa. É explícita, é provocadora — e é tecnicamente impecável. Quem quer entender por que Manara tem o nome que tem começa por aqui.
Gullivera é a releitura mais pessoal de toda a obra: Manara reinterpreta Jonathan Swift como só ele poderia, com uma protagonista que atravessa mundos fantásticos e situações que oscilam entre o absurdo e o erótico sem pedir licença para nenhum dos dois. É o livro que eu indicaria para quem já conhece o autor e quer ver até onde o traço dele consegue ir quando a narrativa é completamente sua.
Com Hugo Pratt — mentor, amigo, referência — produziu Verão Índio e El Gaucho, dois álbuns que mostram outra face do artista: histórica, melancólica, muito menos sobre corpos e muito mais sobre tempo e perda. Verão Índio em particular é a prova de que Manara não precisava do erotismo para ser um desenhista extraordinário. Precisava só do traço.
Com Federico Fellini, produziu Viagem a Tulum — roteiro original do cineasta, adaptado para quadrinhos com uma sensibilidade visual que só faz sentido quando você sabe quem assina as duas partes. E com Alejandro Jodorowsky, quatro volumes de Bórgia, sobre a família papal mais corrupta e fascinante da história europeia.
Há também X-Men: Mulheres em Fuga, com roteiro de Chris Claremont, e uma história em Sandman: Noites Sem Fim com Neil Gaiman — ambas provas de que o mercado americano reconhecia o talento muito antes do grande público generalista.

O que a Pipoca e Nanquim publicou no Brasil
A Pipoca e Nanquim é, disparado, a editora brasileira que mais cuida da qualidade gráfica e editorial dos seus lançamentos de HQ. Então faz todo sentido que ela seja a responsável pelas edições mais bonitas de Manara disponíveis no Brasil hoje.
São dois títulos no catálogo: O Rei Macaco e Bórgia (Edição Integral). Se você vai começar por um, começa pelo Rei Macaco — é mais acessível, tem uma estrutura narrativa mais clara para quem ainda não conhece o estilo do autor, e a edição física da Pipoca é lindíssima. O Bórgia é para quem já está convencido e quer mergulhar fundo.

Milo Manara e Silverio Pisu reinventam a lenda chinesa de Sun Wukong numa epopeia filosófica publicada originalmente em 1976. A edição da Pipoca e Nanquim é capa dura e vale cada centavo.

Quatro volumes em um, reunindo a saga completa dos Bórgia por Jodorowsky e Manara. Violenta, sexual, historicamente fascinante — e uma das colaborações mais potentes que os quadrinhos europeus já produziram.
A edição física do Bórgia pode ser encontrada diretamente no site da Pipoca e Nanquim por R$139,90.
Por onde começar se você nunca leu Manara
Se você vem de fora dos quadrinhos europeus, começa por O Rei Macaco. A história tem estrutura de aventura clássica, o erotismo está presente mas não domina o tom, e o traço de Manara aparece num dos melhores momentos da carreira dele. É a porta de entrada menos assustadora e, ao mesmo tempo, uma das obras mais completas que ele já produziu.



