Tem uma coisa que o Junji Ito faz e ninguém mais consegue: ele transforma o comum em pesadelo. Uma espiral. Um balão de aniversário. Um peixe. Coisas que você olha todo dia e, depois de ler, nunca mais enxerga do mesmo jeito. Não é sangue jorrando na sua cara — é aquele desconforto que gruda e demora pra sair.
Com o anime de Uzumaki reacendendo a fila de gente curiosa e o Brasil vivendo o melhor momento de sempre pra ler o autor — Devir, Pipoca & Nanquim e Darkside trouxeram quase tudo que importa —, resolvi montar o mapa. Estes são os sete mangás por onde eu mandaria qualquer pessoa começar, na ordem que eu acho que faz mais sentido. Do clássico incontornável ao que quase ninguém comenta e devia.
Antes de começar: Junji Ito escreve muito em histórias curtas e antologias, não em sagas longas. Isso é ótimo pra quem tá entrando — dá pra ler um conto por noite e ir sentindo o estilo sem compromisso de maratona.
1Uzumaki — a obsessão em espiral
Devir · 1998–1999 · volume único (3 tomos originais)

Se você só puder ler um Junji Ito na vida, leia esse. Uzumaki conta a história de Kurôzu-cho, uma cidadezinha amaldiçoada não por um monstro, não por um fantasma — mas por uma forma. A espiral. As pessoas começam a se obcecar por ela, e a obsessão vira deformidade, e a deformidade vira horror puro. É body horror cósmico levado ao limite do que o desenho consegue sugerir.
O que me pega em Uzumaki é a paciência. Ito constrói o pesadelo devagar, capítulo a capítulo, até você perceber que não existe saída — a maldição é geométrica, é maior que qualquer personagem. E aí ele entrega páginas que ficam com você por anos. Aquele cabelo que se enrola sozinho? Eu penso nisso até hoje quando vejo alguém arrumando o penteado. É a obra-prima dele, ponto.

O volume único que reúne a saga completa da espiral. A porta de entrada definitiva.
2Tomie — a beleza que não morre
Pipoca & Nanquim · 1987–2000 · 2 volumes (BR)

Foi com Tomie que tudo começou — literalmente. Essa é a primeira obra do Ito, a que ganhou o Prêmio Kazuo Umezu em 1989 e abriu as portas da carreira dele. E, confesso, é o mangá que eu mais revisito. Tomie é uma garota de beleza sobrenatural que enlouquece todo homem que cruza seu caminho, é assassinada de formas horríveis... e sempre volta. Multiplicada.
O gênio da coisa não é o terror gráfico — que tem, e bastante. É a leitura por baixo. Tomie é sobre obsessão, ciúme, posse, sobre o que a beleza faz com quem observa e com quem é observado. Cada conto é uma variação do mesmo tema com um final novo, e você vai ficando cada vez mais incomodado sem saber exatamente por quê. Se Uzumaki é o mais impressionante, Tomie é o mais inteligente. É o meu favorito pessoal aqui, e não é nem perto.

A obra que fundou a lenda. Comece pelo volume 1 e prepare-se pra não conseguir parar.
3Frankenstein e Outras Histórias de Horror — o clássico revisitado
Pipoca & Nanquim · 1994–1998 · volume único (400+ págs)

Esse aqui tem selo de qualidade oficial: ganhou o Eisner Award de 2019 na categoria Melhor Adaptação de Outra Mídia. Ito pegou o romance de Mary Shelley e traduziu pro traço dele — e o resultado é o mais próximo que a HQ já chegou do horror gótico que Shelley imaginou. A criatura do Ito é grotesca de um jeito que arrepia, mas ao mesmo tempo trágica. Você tem pena e nojo ao mesmo tempo.
Mas o que faz esse volume valer cada centavo são os contos que vêm junto. É aqui que mora o Soichi, aquele garoto sinistro que anda com pregos na boca, um dos personagens mais icônicos e — surpreendentemente — mais engraçados do autor. É um pacote generoso, mais de 400 páginas, edição caprichada. Ótimo para quem quer sentir a amplitude do Ito num livro só.

Vencedor do Eisner 2019. A adaptação de Shelley + contos do Soichi num volumão.
4Gyo — o cheiro da morte
Devir · 2001–2002 · volume único

Gyo é o mais maluco da lista, e digo isso como elogio. Peixes que saem do mar andando sobre pernas mecânicas, movidos por um gás de morte que fede como carniça. Um casal em férias vira testemunha do apocalipse mais absurdo já desenhado. A ideia nasceu, dizem, do medo que o próprio Ito tem de tubarões — e ele transformou fobia pessoal em pesadelo coletivo.
Não é a obra mais sofisticada dele, e Ito mesmo brinca com isso. Mas Gyo tem uma energia visceral, quase de filme B, que eu adoro. É horror que também é grotescamente divertido. Se você quer algo diferente do terror atmosférico de Uzumaki e Tomie, começa por aqui pra ver o quanto o cara consegue variar.

Peixes-zumbi, gás da morte e o apocalipse mais bizarro do autor num volume só.
5Fragmentos do Horror — o Ito em estado bruto
Pipoca & Nanquim · 2013–2014 · volume único (antologia)

Depois de um hiato, Ito voltou às histórias curtas com Fragmentos do Horror, e é uma delícia justamente por ser irregular. São contos independentes, alguns geniais, outros que parecem experimentos — e é aí que está a graça. Tem uma casa que engole gente, tem um conto meta em que o próprio Ito aparece falando do processo criativo. É o autor se divertindo.
Recomendo esse como segundo ou terceiro passo, depois que você já pegou o jeito. Como antologia, funciona perfeitamente pra ler picado, e mostra que mesmo o Ito "menor" é mais criativo que a maioria do gênero no auge. Pra mim, o conto da casa vale o livro inteiro.

Antologia de contos independentes com o Ito solto e experimental. Ótimo pra ler picado.
6As Egocêntricas Maldições de Souichi — terror com humor
Pipoca & Nanquim · volume único

Aqui é a minha recomendação de virada de chave. Todo mundo conhece Uzumaki e Tomie, mas quase ninguém fala do Souichi — e ele mostra um lado do Ito que raramente aparece nas listas: o humor. Souichi é um moleque invejoso, dramático, que anda com pregos na boca e rabisca bonecos vodu contra a própria família. É macabro e ridículo ao mesmo tempo.
Eu gosto muito desse volume justamente porque quebra a expectativa. Você entra achando que vai ser puro pavor e sai rindo do absurdo, mas ainda desconfortável — que é a assinatura do cara. É a prova de que Junji Ito não é só sustos: é um autor de tom. Se você já leu os quatro primeiros da lista e quer se surpreender, é esse que eu colocaria na sua mão.

O lado engraçado e macabro do Ito, num dos personagens mais subestimados dele.
7Contos de Horror da Mimi — medo do cotidiano
Pipoca & Nanquim · volume único (antologia)

Pra fechar, um que costuma passar batido e não deveria. Contos de Horror da Mimi acompanha uma protagonista recorrente em situações de terror mais aterrissadas — nada de peixes andantes ou espirais cósmicas. Aqui o medo mora no vizinho estranho, no namorado que não é bem o que parece, no telefonema que não devia ter atendido.
É um Ito mais contido, quase de história de fantasma contada em roda. E funciona porque ele sabe exatamente onde parar. Coloco por último não porque é o pior — longe disso —, mas porque brilha mais depois que você já entendeu o repertório do autor. É a sobremesa da lista.

Terror do cotidiano, mais contido e sinistro. Melhor apreciado depois dos clássicos.
Por onde começar, afinal?
Se você quer o caminho mais curto pra entender por que o mundo inteiro fala do Junji Ito: leia Uzumaki primeiro pra levar o soco, depois Tomie pra perceber que ele é muito mais que um susto. Desses dois, você já sai fã ou já sai correndo — e as duas reações são válidas.
Agora, se me perguntam qual eu abraço com mais carinho, é Tomie, sempre. Tem obra mais impressionante na lista, tem obra mais premiada, mas nenhuma me fisga como aquela garota que se recusa a morrer. Terror bom não é o que te assusta na hora — é o que continua te cutucando dias depois. E o Ito é, disparado, o melhor nisso que existe.
Qual foi o primeiro Junji Ito que te marcou? Me conta — e se você ainda não leu nenhum, começa por Uzumaki e volta aqui pra reclamar comigo depois.
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