Existe uma versão específica de Harry Potter que vive na memória de quem cresceu nos anos 2000 no Brasil — e ela não tem nada a ver com os filmes. É aquele Harry de polígonos toscos, com olhos que parecem dois botões negros num rosto de cera, andando pelos corredores de uma Hogwarts que oscilava entre encantadora e aterrorizante dependendo do ângulo da câmera. Era o Harry Potter da Electronic Arts para o PlayStation 1. E eu passei mais horas naquele jogo do que consigo justificar racionalmente.

A EA lançou dois jogos de Harry Potter para o PS1 entre 2001 e 2002 — Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta, ambos desenvolvidos pela Argonaut Games. São jogos de ação e aventura com elementos de plataforma, publicados no crepúsculo da vida útil do PlayStation original, numa época em que a franquia estava no seu pico de febre cultural. O primeiro vendeu mais de 8 milhões de cópias globalmente — tornando-se, absurdamente, um dos jogos mais vendidos da história do console. Isso diz tudo sobre o contexto.

Os dois jogos de Harry Potter no PS1

  • Jogo 1: Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001)
  • Jogo 2: Harry Potter e a Câmara Secreta (2002)
  • Desenvolvedor: Argonaut Games
  • Publisher: Electronic Arts
  • Plataforma: PlayStation 1
  • Duração média: 4 a 6 horas cada
  • Cópias vendidas (Pedra Filosofal): +8 milhões de unidades globalmente

A Pedra Filosofal : onde tudo começou a ficar estranho

Harry Potter e a Pedra Filosofal saiu em novembro de 2001 para o PS1, pouco depois do lançamento do filme de Chris Columbus. A Argonaut Games tinha uma missão clara: fazer o jogador se sentir dentro de Hogwarts. E eles conseguiram — de um jeito perturbador e maravilhoso ao mesmo tempo.

O jogo é um action-adventure de câmera em terceira pessoa, com exploração de corredores, puzzles e batalhas de feitiços. Você controla Harry pelos anos letivos da escola de magia, coletando Faíscas do Mago, aprendendo feitiços nas aulas e eventualmente enfrentando Voldemort. O que chama atenção primeiro é o que está faltando: não existe botão de pulo. Harry salta automaticamente quando se aproxima de bordas e plataformas, numa decisão de design que soa estranha mas acaba funcionando melhor do que devia.

As aulas de magia funcionavam como um mini-game no estilo Simon Says: Snape ou Flitwick exibia uma sequência de botões e você tinha que reproduzir na ordem certa. Cada feitiço aprendido abria novas possibilidades no mapa — o Wingardium Leviosa movia objetos, o Alohomora destancava portas. Era uma estrutura de progressão que hoje chamaríamos de metroidvania leve, embora na época isso fosse só "o jeito que o jogo funcionava."

Hogwarts nunca pareceu tão grande quanto naquela versão do PS1. Você podia se perder de verdade naqueles corredores — o que era assustador e fascinante em proporções iguais.

Os gráficos são, obviamente, o ponto mais comentado hoje em dia. Os rostos dos personagens beiram o terror em vários momentos — Dumbledore parece uma máscara de carnaval vagando por corredores iluminados por tochas cintilantes. Hermione tem uma geometria facial que pertence ao gênero horror. E mesmo assim havia algo genuinamente evocativo na forma como a Argonaut construiu Hogwarts: os corredores compridos, as escadas que mudavam, a Grande Sala com suas velas flutuantes. Era feio e fascinante ao mesmo tempo.

Gameplay de Harry Potter e a Pedra Filosofal no PS1 — Harry Potter correndo por um corredor de Hogwarts com gráficos poligonais característicos do PlayStation 1
IMAGEM · harry-potter-jogos-ps1-pedra-2026.webp · Fonte: Electronic Arts / Argonaut Games

Veja como o jogo soava e parecia em movimento — a dublagem era em português de Portugal, o que para muita gente no Brasil era exatamente assim que Harry Potter deveria soar:

Harry Potter e a Pedra Filosofal — PS1 Gameplay PT-BR

▸ Harry Potter e a Pedra Filosofal (PS1) — gameplay dublado em português de Portugal. Observe os feitiços no estilo Simon Says e a escala surpreendente de Hogwarts.

A Câmara Secreta : a Argonaut aprendeu com os erros

Um ano depois, a Argonaut Games lançou Harry Potter e a Câmara Secreta para o PS1 — e o salto de qualidade é perceptível. Não é um jogo radicalmente diferente, mas é claramente um estúdio que entendeu o que havia funcionado e o que havia irritado os jogadores no primeiro.

A Câmara Secreta expandiu o sistema de feitiços, adicionou mais conteúdo explorável dentro de Hogwarts, e trouxe um dos momentos mais memoráveis da série no PS1: a sequência de desgnomização do jardim dos Weasley. Parece uma coisa pequena, mas jogar gnomos o mais longe possível enquanto eles guinchavam era o tipo de momento absurdo que ficava gravado na memória de uma criança de 9 anos. Eu me lembro disso com uma nitidez surpreendente.

O combate também evoluiu. Enquanto o primeiro jogo dependia quase inteiramente de acertar sequências de botões para lançar feitiços estacionário, a Câmara Secreta permitia mais mobilidade durante as batalhas. O resultado era menos frustrante — ainda que os modelos dos personagens continuassem perturbando a sanidade visual de qualquer adulto que retornasse ao jogo hoje.

Harry Potter e a Câmara Secreta no PS1 — Harry em batalha de feitiços com gráficos poligonais do PlayStation 1, mostrando a progressão visual em relação ao primeiro jogo
IMAGEM · harry-potter-jogos-ps1-camara-2026.webp · Fonte: Electronic Arts / Argonaut Games

A Câmara Secreta até hoje é considerada a adaptação mais bem-recebida de toda a série de jogos do Harry Potter — fato que surpreende muita gente que não acompanhou a franquia além dos anos de PS1. Ela foi lançada simultaneamente em oito plataformas com cinco versões diferentes, mas a versão do PS1 tinha uma identidade própria que a diferenciava das versões para PC e consoles de nova geração.

Harry Potter e a Câmara Secreta — PS1 Gameplay PT-BR HD

▸ Harry Potter e a Câmara Secreta (PS1) — gameplay completo em português. Note a desgnomização do jardim e o sistema de feitiços aprimorado em relação ao primeiro jogo.

Por que esses jogos ainda importam

A resposta fácil seria "nostalgia." Mas eu acho que tem mais do que isso. Os jogos de Harry Potter no PS1 existem num ponto específico da história dos videogames em que o hardware ainda não conseguia fazer jus à ambição dos desenvolvedores — e isso forçava escolhas criativas que resultavam em experiências únicas. Hogwarts no PS1 não é fotorrealista, mas tem uma atmosfera que versões tecnicamente superiores às vezes perdem.

Existe uma certa ironia no fato de que o Hogwarts Legacy, lançado em 2023 com gráficos deslumbrantes e um mundo aberto imenso, não substituiu a memória que aquelas versões do PS1 ocupam no imaginário de quem cresceu com elas. São coisas diferentes. Uma é uma realização técnica impressionante; a outra é parte de uma infância.

Se você nunca jogou, existe um universo de gameplay em português disponível no YouTube — e os links acima são um bom ponto de partida. Se você jogou e está relendo isso com aquela mistura de afeto e trauma que os jogos do PS1 provocam em todo mundo: você não está sozinho. Eu também nunca consigo lembrar da trilha sonora daquele jogo sem sentir vontade de procurar uma memória de PS1 num sebo.