Em 1968, um ex-vendedor de carros australiano sem uma única linha de currículo cinematográfico relevante entrou sem hora marcada no escritório da EON Productions, em Londres, usando o terno mais caro da alfaiataria que vestia Sean Connery. Catorze meses depois, esse mesmo homem — já com o contrato de Bond assinado, o filme praticamente pronto e uma oferta de seis produções nas mãos — decidiu que não queria mais ser James Bond. George Lazenby continua sendo, até hoje, o único ator a interpretar 007 oficialmente uma única vez.
A história de como ele chegou ao papel é tão improvável quanto a de como ele saiu dele. E entender as duas metades é essencial para entender por que A Serviço Secreto de Sua Majestade segue sendo o grande "e se" da franquia Bond.
Um modelo, um terno emprestado e um nariz quebrado
Lazenby nunca planejou ser ator. Nascido em 1939 em Queanbeyan, na Austrália, serviu no exército antes de se mudar para Londres em 1964, onde trabalhou como vendedor de carros até ser descoberto por um agente de modelos. Em poucos anos virou um dos rostos mais bem pagos da Europa, estampando campanhas como a do cigarro Marlboro. Atuação profissional, ele tinha zero — só uma ponta não creditada numa paródia italiana de espionagem.
Quando Sean Connery anunciou que deixaria o papel depois de Com 007 Só se Vive Duas Vezes (1967), o agente de Lazenby soube de uma audição secreta e o convenceu a tentar. Lazenby foi além: comprou um terno na mesma alfaiataria usada por Connery, cortou o cabelo no mesmo estilo e apareceu na porta da EON sem convite, mentindo sobre créditos que não tinha. Funcionou. Ele venceu candidatos com currículo de verdade, incluindo atores que já haviam trabalhado com a produtora.
O momento decisivo veio no teste de cena de luta. Sem noção de como coreografar um golpe falso, Lazenby simplesmente acertou o dublê de verdade, sangrando o nariz do profissional. Harry Saltzman, um dos produtores da franquia, passou por cima do homem caído no chão e decidiu ali que tinha encontrado seu novo Bond. Em 7 de outubro de 1968, Lazenby foi oficialmente anunciado no papel.
Ficha técnica — A Serviço Secreto de Sua Majestade (1969)
- Diretor: Peter Hunt (em sua estreia como diretor, após anos como editor da franquia)
- Elenco principal: George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas
- Estreia: 18 de dezembro de 1969
- Orçamento: US$ 7 milhões
- Bilheteria mundial: US$ 64,6 milhões (cerca de metade do filme anterior, ainda assim um dos maiores sucessos do ano)
Um set hostil e um ator sem manual de instruções
As filmagens não ajudaram a construir confiança entre as partes. Peter Hunt, estreando na direção depois de anos como editor da série, adotou uma postura fria com o novato: falava com ele quase sempre por intermédio de um assistente e orientou o restante do elenco a manter distância — uma estratégia que, segundo o próprio diretor explicaria décadas depois, tinha o objetivo de fazer Lazenby sentir na pele o isolamento que o próprio Bond sentiria na trama.
Diana Rigg, que interpretava Tracy di Vicenzo, também não escondia sua irritação com a postura do colega de cena, que ela considerava arrogante demais para alguém sem nenhuma experiência de set. A tensão entre os dois era perceptível nos bastidores, mesmo com a química funcionando na tela. Lazenby ainda insistiu em fazer suas próprias cenas de perseguição de carro e capotou três Ford Escort antes que Hunt o tirasse do volante.

O conselho que definiu — e destruiu — uma carreira
Nada disso, porém, foi o motivo real da saída. O responsável direto foi Ronan O'Rahilly, empresário irlandês ligado à contracultura e fundador da rádio pirata Radio Caroline, que se tornou agente de Lazenby. Na visão de O'Rahilly, o mundo estava mudando rápido demais para um espião de terno e cabelo curto continuar relevante nos anos 1970: a geração hippie estava tomando conta da cultura, e nomes como Clint Eastwood — então rodando faroestes na Itália por cachês bem menores do que os de Bond — representavam melhor o futuro do cinema de ação.
Convencido, Lazenby recusou uma proposta de seis filmes avaliada em cerca de US$ 1 milhão, um salto enorme sobre os US$ 10 mil que havia recebido pela primeira produção. Em novembro de 1969, um mês antes da estreia, anunciou publicamente que não voltaria ao papel. Para deixar a decisão ainda mais clara, apareceu na première de A Serviço Secreto de Sua Majestade com barba e cabelo comprido — o visual hippie que, na cabeça dele, provava que Bond já era coisa do passado.
A história corrigiu a aposta — só que tarde demais
O tempo não deu razão a Lazenby nem a seu agente. A Serviço Secreto de Sua Majestade foi bem nas bilheterias de 1969, mas a recepção crítica da época foi morna, em parte por causa da desconfiança do público com a troca de protagonista. Nas décadas seguintes, porém, o filme passou por uma das reavaliações mais drásticas da franquia: hoje é tratado por boa parte da crítica especializada e do fandom como uma das adaptações mais fiéis aos romances de Ian Fleming e, para muitos, o melhor Bond já feito. Christopher Nolan chegou a declará-lo seu Bond favorito e homenageou o assalto à fortaleza de Piz Gloria na sequência de neve de A Origem (2010).
Eu entendo perfeitamente por que esse filme hoje é tratado como cult. A química entre Lazenby e Rigg funciona mesmo com toda a tensão fora das câmeras, o terceiro ato é genuinamente devastador para os padrões da franquia, e Peter Hunt trouxe um ritmo de montagem que nenhum Bond anterior tinha. Discordo, sim, de quem descarta a atuação de Lazenby só porque ele era estreante — para um cara que nunca tinha decorado uma cena na vida, ele carrega o filme surpreendentemente bem.

Depois de deixar Bond, a carreira de Lazenby nunca decolou do jeito que ele esperava. O drama de guerra Universal Soldier (1971) fracassou nas bilheterias, e ele passou boa parte da década seguinte fazendo filmes de kung fu em Hong Kong, incluindo uma parceria com Bruce Lee que nunca saiu do papel por causa da morte precoce do astro. Em entrevistas mais recentes, já octogenário, Lazenby tem admitido publicamente que se arrepende da decisão — algo que seria impensável ouvir do jovem confiante que apareceu de terno emprestado na porta da EON em 1968.
No fim, a saída de Lazenby não foi sobre talento, nem sobre o público rejeitá-lo. Foi sobre um conselho errado, dado na hora errada, para o ator errado ouvir. E é justamente por isso que A Serviço Secreto de Sua Majestade carrega até hoje esse peso duplo: o de ser, ao mesmo tempo, um dos melhores Bonds já filmados e a prova definitiva de que ler o momento cultural certo é tão difícil quanto interpretar um espião britânico.



