Três mil e duzentas vagas. É esse o número que a Microsoft colocou em cima da mesa nesta segunda-feira (6), quando Asha Sharma, CEO da divisão de games desde fevereiro, confirmou aos funcionários que o Xbox vai cortar cerca de 20% do próprio quadro até o fim do ano fiscal de 2027. Mil e seiscentas dessas demissões já aconteceram no mesmo dia do anúncio, como parte de uma leva maior de 4.800 cortes em toda a Microsoft.
Não é surpresa pra quem acompanha o Xbox de perto. Sharma já tinha avisado, num memorando de "100 dias" publicado em junho, que o negócio precisava de um "reset". O que ninguém sabia ao certo era o tamanho do estrago — e, com o comunicado desta segunda, ficou claro que "reset" era eufemismo para a reestruturação mais agressiva da história da marca.
Os números que a Microsoft nunca tinha admitido
O que chama atenção no memorando de Sharma não é só o volume de demissões, mas a franqueza dos números que ela decidiu expor. Segundo a executiva, o Xbox opera hoje com margens de lucro de três a dez vezes menores do que concorrentes comparáveis do setor — e perde 64 centavos para cada dólar investido em seus próprios estúdios internos. Para uma divisão que gastou mais de US$ 20 bilhões em investimentos nos últimos cinco anos enquanto a receita anual encolhia, é o tipo de dado que normalmente fica trancado numa sala de reunião, não num e-mail para milhares de funcionários.
Sharma também admitiu que a estrutura interna do Xbox virou um labirinto: algumas áreas da empresa acumularam até 14 camadas de gerência, mesmo com o público de jogadores e o tempo de jogo em queda. A resposta anunciada é achatar essa hierarquia para no máximo cinco níveis — três, quando possível — e cortar os gastos com fornecedores pela metade.

Double Fine, Ninja Theory e mais dois estúdios saem do grupo
A parte mais dolorosa para quem acompanha os estúdios first-party do Xbox é a lista de quem deixa de fazer parte oficialmente da Microsoft. A Compulsion Games (South of Midnight) e a Double Fine Productions (Psychonauts) voltam a ser estúdios independentes, mantendo a propriedade intelectual e os projetos em andamento sob as próprias equipes de gestão. Já a Ninja Theory (Hellblade) e a Undead Labs (State of Decay) passam para novos donos, que ficam com a responsabilidade de financiar a conclusão dos jogos em desenvolvimento. Na França, a Arkane — de Dishonored e Deathloop — abriu uma consulta obrigatória por lei com o conselho de trabalhadores para decidir o próprio futuro.
Eu confesso que tenho um carinho particular pela Double Fine. Não é o estúdio mais lucrativo do catálogo Xbox, nunca foi, mas é dono de uma das poucas franquias que ainda trata narrativa e level design como a mesma coisa. Ver a Microsoft devolver a Psychonauts pra própria equipe da Double Fine, em vez de simplesmente fechar as portas, é a única boa notícia dentro de um comunicado que, fora isso, é só número ruim atrás de número ruim.
Os cortes também atingem Activision, Bethesda/ZeniMax, Blizzard, King, Mojang e os estúdios internos do Xbox Game Studios — com intensidades diferentes em cada divisão. Sharma fez questão de garantir que nenhum jogo ou projeto first-party já anunciado publicamente está sendo cancelado por causa da reestruturação. Vale o registro: isso não é garantia de que os jogos não vão atrasar, só de que eles não somem do mapa.
Vamos voltar a crescer em 2027. A história está cheia de empresas que confundem longevidade com inevitabilidade. Nós não seremos uma delas.
— Asha Sharma, CEO do Xbox, em memorando aos funcionários
Uma nova cadeira de comando pra segurar as pontas
Junto com os cortes, Sharma criou o cargo de diretora de operações (COO) com responsabilidade financeira de ponta a ponta sobre conteúdo, hardware, plataforma e serviços — e colocou Helen Chiang, veterana de quase 20 anos de Xbox e ex-líder da Mojang e da franquia Minecraft, no comando. Dave McCarthy, outro nome de 17 anos de casa que ajudou a construir a plataforma original, está se aposentando. A própria Sharma passa a supervisionar diretamente a Mojang (Minecraft) e a King (Candy Crush), os dois maiores estúdios do Xbox em jogadores ativos mensais.
Dá pra ler essa movimentação de duas formas. Ou é uma centralização necessária depois de anos de estúdios operando cada um na sua bolha — o que a própria Sharma admite ter acontecido — ou é o sinal de que a Microsoft não confia mais em deixar decisões de produto espalhadas. Eu aposto nas duas ao mesmo tempo.

O contexto que explica o "reset"
Essa não é a primeira leva de demissões do Xbox nos últimos anos, mas é de longe a mais estrutural. A aposta pesada da Microsoft no Game Pass e na estratégia multiplataforma prometia crescimento acelerado; na prática, segundo relatório do Wall Street Journal, o serviço estaria na casa dos 30 milhões de assinantes — bem abaixo da meta interna. O CEO da Microsoft, Satya Nadella, já vinha sinalizando publicamente que a era de subsidiar o Xbox como aposta estratégica na sala de estar tinha acabado, chegando a comentar que criadores de conteúdo no YouTube ganham mais dinheiro com jogos do Xbox do que a própria Microsoft.
É esse o pano de fundo real por trás do "reset": 25 anos de um console que a Microsoft bancou sem cobrar retorno direto, batendo de frente com a pior crise de hardware da história da indústria, numa geração em que o Xbox entrou com base instalada menor e custo operacional maior que o esperado.
O que fica depois do comunicado
As 1.600 demissões desta segunda são só a primeira fatia; o restante das 3.200 vagas cortadas vem ao longo dos próximos meses, o que Sharma reconhece que "cria desafios adicionais" — mas, segundo ela, não dava pra fazer tudo isso num único dia. Fica a promessa de crescimento em 2027 e a garantia de que os jogos anunciados seguem em produção. Fica também uma pergunta que nenhum memorando resolve: quantas dessas reestruturações "definitivas" o Xbox ainda vai precisar anunciar até a conta realmente fechar.



