Em novembro de 2024, quando a 6ª edição do Retratos da Leitura no Brasil foi divulgada, os títulos correram rápido: "Brasil tem mais não-leitores do que leitores pela primeira vez". E era verdade. Só 47% da população com mais de 5 anos leu algum livro nos três meses anteriores à pesquisa — contra 52% em 2019. São 93,4 milhões de leitores versus 100,1 milhões na edição anterior. Sete milhões de pessoas que pararam de ler.
Fui uma das primeiras a compartilhar os dados no grupo da família com cara de velório. Mas aí, três meses depois, a Câmara Brasileira do Livro lança os números de 2025: 3 milhões de novos compradores de livros. Setor com crescimento de 8%. Faturamento de R$ 3,08 bilhões. Sessenta milhões de livros vendidos. E o BookTok com 3 bilhões de visualizações só no Brasil.
Espera. Menos leitores e mais livros vendidos ao mesmo tempo? Sim. E entender esse paradoxo diz mais sobre o Brasil de 2026 do que qualquer manchete isolada.
Os números do livro no Brasil — panorama 2024–2026
- Leitores: 93,4 milhões (47% da pop. acima de 5 anos) — Retratos da Leitura 2024
- Versus 2019: 100,1 milhões (52%) — queda de 6,7 milhões de leitores
- Novos compradores: +3 milhões em 2025 — total de 18% dos adultos brasileiros adquiriu ao menos 1 livro
- Faturamento 2025: R$ 3,08 bilhões · 60 milhões de livros vendidos
- Crescimento do setor: +8% de 2024 para 2025 · +13% no número de empresas entre 2023–2025
- Digital: +21,6% nominal em 2024 · expansão acelerada de e-books e audiobooks
- BookTok Brasil: #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de views · +39% de publicações no 1º sem. 2025
- Jovens: Faixa 18–34 anos avançou 3,4 pontos percentuais de compradores em 2025
O que o Retratos da Leitura mede — e o que não mede
A pesquisa do Instituto Pró-Livro é o padrão-ouro do setor. É séria, abrangente — 5.504 entrevistados em 208 municípios — e existe desde 2000. Mas ela tem um critério específico: conta como leitor quem leu pelo menos parte de um livro nos últimos três meses. Livro aqui inclui o didático, o religioso, o de autoajuda, a graphic novel, o mangá — tudo.
O problema não é a metodologia. É que muita gente usa esse número para dizer que o Brasil "está lendo menos" no sentido mais amplo e catastrófico, sem olhar o que está embaixo do dado. E o que tem embaixo é mais interessante.
A queda aconteceu principalmente em dois grupos: leitores de livros religiosos (que dominavam edições anteriores da pesquisa) e leitores de didáticos — que dependem de escola funcionando direito, material disponível e um contexto pós-pandemia que ainda está se recompondo. Tira esses dois e o panorama muda bastante.
Três milhões de novos compradores: quem são essas pessoas?
Os dados da CBL para 2025 têm um detalhe que me prendeu a atenção: o maior salto de compradores aconteceu na faixa de 18 a 34 anos, que avançou 3,4 pontos percentuais em um único ano. Não é coincidência nenhuma — é exatamente o público do BookTok, do Reels de resenha e do podcast literário.
É a mesma geração que cresceu ouvindo que "ninguém mais lê", que teve aula do EAD durante a pandemia e que agora está comprando A Biblioteca da Meia-Noite, O Problema dos Três Corpos e qualquer coisa que o BookTok recommende numa sexta-feira à noite. A ironia — e eu uso essa palavra com carinho — é que as redes sociais que supostamente estavam destruindo a atenção de todo mundo viraram a maior promotora de livros que o Brasil já teve.

O efeito BookTok: 3 bilhões de views e livros esgotados
A hashtag #BookTokBrasil ultrapassou 3 bilhões de visualizações. Só no primeiro semestre de 2025, as publicações com as tags #BookTok ou #BookTokBrasil cresceram 39% — em média 12 mil vídeos por semana. Para ter uma referência: isso é mais conteúdo literário sendo produzido por semana do que muitos suplementos culturais publicaram em décadas.
O impacto no mercado é mensurável e direto. Livros que dormiam no catálogo de editoras pequenas viralizaram no TikTok e esgotaram em 48 horas. Livrarias físicas — que teoricamente deveriam estar morrendo — registraram aumento de movimento nas seções de ficção jovem adulta e romance literário porque as pessoas chegam com o celular na mão mostrando o vídeo da recomendação. O escritor Gabriel Mattos, em entrevista recente ao Correio Braziliense, disse exatamente isso: os booktokers estão animando o mercado de um jeito que a imprensa literária tradicional não consegue mais fazer sozinha.
As redes que supostamente destruíram a atenção de todo mundo viraram a maior promotora de livros que o Brasil já teve.
— Jéssica Lopes · GeekFeed
O boom digital que ninguém está comemorando suficientemente
Os e-books e audiobooks cresceram 21,6% nominais em 2024 — e descontando inflação, ainda ficaram no positivo com 16%. Isso é expressivo. O Retratos da Leitura, que faz parte da sua metodologia a partir de livros físicos e digitais, ainda captura uma parcela disso, mas existe uma discussão legítima no setor sobre se os hábitos de leitura digital estão sendo subregistrados.
Quem ouve audiobook no trânsito está lendo? Quem consome mangá em plataforma digital está na conta? Para efeitos comerciais do setor, sim — e o faturamento de R$ 3,08 bilhões de 2025 inclui esse universo. Para efeitos do Retratos, a resposta é mais complicada e vai depender de como o entrevistado interpreta a pergunta.
Vale acompanhar: O Instituto Pró-Livro publica o Retratos da Leitura a cada 4–5 anos. A 6ª edição, de 2024, está disponível gratuitamente no site da Fundação Itaú. É longa, é densa, e vale cada tabela.
Quem está lendo, quem parou — e o que isso revela
O perfil que o Retratos traça dos novos leitores brasileiros de 2025 é o seguinte: mulheres, negras, classe C, nordestinas. Isso não é um dado periférico — é a informação mais importante de toda a pesquisa. A leitura está crescendo nos grupos que historicamente tiveram menos acesso a ela. O que indica que o problema não é falta de vontade ou de capacidade: é acesso, renda e infraestrutura.
Ao mesmo tempo, as regiões com maior renda per capita continuam liderando o ranking de leitores. Santa Catarina aparece com 64% de leitores — contra uma média nacional de 47%. Paraná e Ceará com 54% cada. A desigualdade na leitura espelha a desigualdade econômica com uma precisão que assusta.
O paradoxo tem uma explicação — e ela é esperançosa
Quando você coloca todos esses números juntos, o paradoxo se dissolve. O Brasil não está numa contradição: ele está numa transição. O leitor habitual de livro religioso ou didático — que sustentou as edições anteriores do Retratos — está sendo parcialmente substituído (em termos de volume de mercado) por um leitor mais jovem, mais digital, mais influenciado por redes sociais e com um gosto mais eclético.
Esse leitor novo compra mais por impulso, é fiel a autores específicos, e tem muito mais canais de descoberta do que qualquer geração anterior. Ele não aparece com tanta força nas estatísticas de "quantas pessoas leram alguma coisa nos últimos 3 meses" porque talvez esteja lendo um livro por mês ao invés de um por semana. Mas quando ele resolve comprar, ele compra — e faz o setor faturar R$ 3 bilhões.
O dado que mais me deu esperança em toda essa pesquisa: entre os que nunca leram, 61% disseram que gostariam de ler mais. Sessenta e um por cento. Isso não é apatia. É demanda reprimida esperando condição.
O Brasil está lendo de um jeito diferente. Menos amplo, mais concentrado. Menos obrigado, mais escolhido. Se o setor e as políticas públicas conseguirem transformar essa demanda reprimida em acesso real — preço, distribuição, escola funcionando — a próxima edição do Retratos vai contar uma história muito diferente.
Eu quero estar aqui pra cobrir.



