Em 2003, eu trocava carta de Pokémon no recreio por um pacote de salgadinho e achava que tinha fechado um baita negócio. Ninguém me avisou que eu estava jogando fora uma fortuna — porque hoje existe uma única carta de Pikachu avaliada em mais dinheiro do que a maioria das pessoas vai ver na conta bancária a vida inteira.
Não é exagero nem clickbait: em fevereiro deste ano, o youtuber e lutador Logan Paul vendeu uma carta de Pokémon por US$ 16,49 milhões — o maior valor já pago por qualquer card colecionável em leilão, de qualquer franquia, na história. E 2026 não parou por aí: foi um ano de recorde atrás de recorde no mercado de Pokémon TCG, com o próprio CEO da casa de leilões Goldin admitindo que as cartas já superaram o S&P 500 em rentabilidade nos últimos vinte anos. Fui atrás dos números reais, das histórias por trás de cada venda, e organizei tudo na ordem certa — com data, valor e fonte.
1Pikachu Illustrator (PSA 10) — US$ 16.492.000
Goldin Auctions · 16 de fevereiro de 2026 · vendida por Logan Paul

Só existem 39 exemplares da Pikachu Illustrator no mundo — todas distribuídas como prêmio de um concurso de ilustração da revista japonesa CoroCoro entre 1997 e 1998. A arte é de Atsuko Nishida, a criadora original do próprio Pikachu, o que já bastaria pra explicar o fascínio. Mas o que faz essa cópia específica ser a carta é o grade: é a única das 39 avaliada como PSA Gem Mint 10, a nota máxima da agência de certificação mais respeitada do hobby.
Logan Paul comprou esse exemplar em 2021 por US$ 5,275 milhões, numa troca que incluiu uma cópia PSA 9 mais US$ 4 milhões em dinheiro — já um recorde para a época. Em fevereiro, ele revendeu a carta pela Goldin Auctions após 42 dias de lances, dentro de um colar de diamantes personalizado que ele usou na WrestleMania 38, com a promessa de entregar a peça pessoalmente ao comprador. Resultado: US$ 16,49 milhões e um recorde Guinness confirmado ao vivo, com direito a confete caindo. Confesso que a parte que mais me pegou não foi nem o valor, foi o showman aparecendo na transmissão dizendo "acho que a gente cansou alguém" depois de horas de lances finais. Isso é espetáculo puro — e funcionou.
2Trophy Pikachu No. 1 Trainer (PSA 9) — US$ 3.000.000
eBay · setembro de 2025 · vendida pelo colecionador Stephychu025

Essa é a carta que, na minha opinião, é a venda mais impressionante da lista — mesmo "só" valendo um quinto do Illustrator. As Trophy Pikachu foram entregues aos vencedores dos primeiros torneios oficiais do TCG, em 1997, e existem em quantidade ainda menor do que a Illustrator em bom estado. Uma cópia PSA 7 (near mint) havia sido vendida por cerca de US$ 80 mil poucos anos atrás. Ver a mesma categoria de carta, agora em grade PSA 9, saltar para US$ 3 milhões não é hobby crescendo — é um mercado inteiro se reprecificando da noite pro dia.
3Charizard japonês, sem símbolo de raridade (PSA 10) — US$ 1.700.000
3 de março de 2026 · maior valor já pago por um Charizard

A versão japonesa da Base Set saiu em 1996, três anos antes da edição em inglês que a maioria dos colecionadores conhece — e por muito tempo foi tratada como coadjuvante. Em março, essa realidade mudou: um exemplar sem o símbolo de raridade no canto inferior, avaliado PSA 10, foi arrematado por US$ 1,7 milhão, o primeiro Charizard da história a romper a marca de sete dígitos. Cinco dias depois, uma cópia semelhante — dessa vez autografada pelo ilustrador Mitsuhiro Arita, o pai visual do Charizard — foi vendida por US$ 1.232.200. O Charizard japonês virou categoria própria de colecionismo praticamente da noite para o dia.
4Pikachu Illustrator (PSA 9) — US$ 1.406.250
Heritage Auctions · março de 2026

No mesmo mês em que uma cópia PSA 10 fez história com Logan Paul, outra Illustrator — dessa vez avaliada PSA 9 — saiu por menos de um décimo daquele valor. Isso não é acaso: mostra o quanto um único ponto de grade pesa nesse mercado. A PSA já certificou cerca de 15 cópias com nota 9, contra apenas uma com nota 10. É a diferença entre "muito raro" e "existe uma só no planeta".
5Charizard japonês autografado por Mitsuhiro Arita (PSA 10) — US$ 1.232.200
8 de março de 2026

Vale repetir esse aqui separado porque ele conta uma história própria: a assinatura do ilustrador responsável pela arte de 1996 — a mesma que praticamente definiu como o mundo todo enxerga o Charizard até hoje — transformou uma carta já rara em uma peça ainda mais cobiçada, vendida cinco dias depois do recorde da número 3 desta lista.
6Charizard 1ª Edição, Base Set em inglês (PSA 10) — US$ 954.800
Goldin Auctions · fevereiro de 2026

Essa é, provavelmente, a carta mais reconhecível da lista inteira — o Charizard clássico, capa não-oficial do hobby de colecionar Pokémon havia décadas. Existem apenas cerca de 125 exemplares certificados PSA 10 dessa edição em inglês, e essa venda superou o recorde anterior de US$ 550 mil pago em dezembro de 2025 pela Heritage Auctions. Se o Charizard japonês é o queridinho dos puristas, o inglês continua sendo o mais desejado pelo grande público — e o preço prova isso.
7Pikachu Illustrator (PSA 8.5, certificação MBA Gold Diamond) — US$ 727.120
Goldin Auctions · março de 2026

Fechando a lista, mais uma Illustrator — dessa vez em grade intermediário, 8.5, com uma certificação adicional da MBA. Ainda assim, "só" mid-grade nessa carta específica significa quase três quartos de milhão de dólares. É o tipo de coisa que resume bem essa lista inteira: mesmo a versão "menos perfeita" da carta mais cobiçada do hobby ainda vale mais que a casa da maioria das pessoas.
Como funciona o grade PSA: a PSA (Professional Sports Authenticator) avalia o estado de conservação de cada carta numa escala de 1 a 10, olhando cantos, centralização, superfície e nitidez de impressão. PSA 10 (Gem Mint) é a nota perfeita — e cada ponto a menos pode significar uma diferença de milhões de dólares no valor final, como os itens desta lista deixam bem claro.
Pokémon já é, oficialmente, a franquia de mídia mais lucrativa do mundo — ultrapassando até Disney e Star Wars — e os números desta lista mostram por que o hobby de colecionar cartas parou de ser coisa de criança há muito tempo. Bater recorde atrás de recorde, mês após mês, não é sinal de bolha estourando: é sinal de que um mercado inteiro amadureceu, virou classe de ativo e agora compete de igual pra igual com quadro de artista e carro clássico em leilão.
E antes que você pergunte: sim, ainda tenho uma caixa de sapato cheia de cartas dos anos 2000 guardada na casa da minha mãe. Vou ligar pra ela assim que terminar esse texto.



