Eu tenho uma teoria, e já aviso que não tem base científica nenhuma: jogar em dia de chuva é objetivamente melhor do que jogar com sol. Não sei se é o barulho da chuva batendo na janela, a desculpa socialmente aceita de não sair de casa, ou simplesmente a sensação de que o mundo lá fora está em pausa — mas algo muda. O jogo fica mais gostoso. O tempo dentro da história pesa menos.

Essa lista não é um ranking de "melhores jogos de todos os tempos". É uma seleção específica para um estado de espírito específico: você, embaixo de uma manta, com uma xícara de algo quente do lado, sem pressa. Cinco jogos que eu volto nesses dias e que, cada um à sua maneira, fazem a chuva lá fora parecer parte do cenário.

1Stardew Valleya fazenda que não precisa de sol

ConcernedApe · 2016 · PC, Switch, PS4, Xbox One, Mobile

Trailer oficial — Stardew Valley

Se eu tivesse que escolher um único jogo para a lista, seria esse. Sim, eu sei que é o óbvio. Não me importa — Stardew Valley é óbvio porque funciona de verdade, e não existe nenhuma outra justificativa que precise existir.

O que Eric Barone (ConcernedApe, o desenvolvedor solo responsável por tudo isso) criou em 2016 é basicamente o equivalente interativo de um livro confortável: você herda uma fazenda em ruínas da sua avó, se muda para Pelican Town, e começa a plantar, criar animais, minerar, pescar e construir amizades. Simples assim, complexo assim. Tem profundidade suficiente para engolir centenas de horas sem que você perceba, mas o ritmo é sempre suave — nada cobra pressa, nada pune você por jogar devagar.

Tem até chuva dentro do jogo. E nos dias de chuva do Stardew, as plantas regam sozinhas e você pode explorar à vontade sem se preocupar com irrigação. É quase uma metáfora. A vida em dia de chuva: as responsabilidades se cuidam e você pode só existir.

Onde jogar: disponível em praticamente tudo que existe — Steam (PC/Mac/Linux), Nintendo Switch, PS4/PS5, Xbox One/Series e celular (iOS e Android). A versão mobile é surpreendentemente boa para partidas curtas no ônibus, mas no Switch com controles é onde ele brilha de verdade.

2Spiritfarero jogo mais bonito sobre se despedir

Thunder Lotus Games · 2020 · PC, Switch, PS4/PS5, Xbox One/Series

Trailer oficial — Spiritfarer

Esse é o meu favorito da lista. Sei que parece corajoso chamar de favorito um jogo cujo tema central é a morte — mas Spiritfarer é exatamente isso, e é exatamente por isso que ele pertence a uma tarde chuvosa.

Você é Stella, uma jovem que herda o papel de Barqueira dos Espíritos — a pessoa responsável por cuidar das almas que ainda não estão prontas para partir. Cada espírito (personificado como um animal adorável com uma história completamente humana) chega ao seu barco, vive com você por um tempo, e no momento certo, você precisa deixá-los ir. A Thunder Lotus Games construiu em torno disso um sistema de gerenciamento de barco, culinária, construção e plataforma que é genuinamente divertido de jogar, mas a emoção real está nas histórias.

Eu chorei três vezes na minha primeira jogada e fingi que era alergia. Em dia de chuva, pelo menos tem uma desculpa melhor.

Spiritfarer é o tipo de jogo que te faz pensar nas pessoas que você ama logo depois de largar o controle.

Jéssica Lopes · GeekFeed

3Unpackinguma vida inteira dentro de caixas

Witch Beam · Humble Bundle · 2021 · PC, Switch, PS4/PS5, Xbox One/Series, Mobile

Trailer oficial — Unpacking

Tudo que você faz em Unpacking é tirar objetos de caixas e guardá-los nos cômodos de uma nova casa. Não tem diálogo, não tem texto, não tem tutorial que explique o que está acontecendo na vida da protagonista. E ainda assim, em algum momento entre guardar um urso de pelúcia numa prateleira e perceber que não tem espaço para os troféus de natação no quarto novo, você entende tudo.

A Witch Beam, estúdio australiano, ganhou dois BAFTA com esse jogo. Merece os dois. Unpacking é uma narrativa ambiental pura — a história de uma mulher contada exclusivamente pelos objetos que ela carrega de um lar para o outro ao longo de décadas. É o tipo de jogo que você termina em uma sessão (umas três horas) e fica pensando nele por dias.

Para um dia chuvoso, é perfeito: não exige reflexo, não cria tensão, não tem timer. É só você, as caixas e uma trilha sonora que parece feita especificamente para tardes lentas.

Dica: Jogue com fone. A trilha sonora de Jeff van Dyck é muito boa e metade da experiência do jogo está nos sons de cada objeto sendo guardado no lugar certo.

4A Short Hikea trilha que não precisa de destino

Adam Robinson-Yu · 2019 · PC, Nintendo Switch

Preview — A Short Hike

Desenvolvido por uma única pessoa — Adam Robinson-Yu, também conhecido como adamgryu — A Short Hike é a prova de que tamanho não define impacto. O jogo tem menos de duas horas se você for direto ao ponto, mas ninguém vai direto ao ponto em A Short Hike porque não faz sentido nenhum ter pressa nesse mundo.

Você é Claire, um passarinho (literalmente) que vai visitar a tia numa ilha. O objetivo técnico é chegar ao topo da montanha para pegar sinal de celular. O objetivo real é explorar cada canto da ilha, pescar, jogar vôlei de praia com estranhos simpáticos, ajudar com quests que não fazem diferença nenhuma para o mundo mas que importam para os personagens. É um jogo que trata o desvio como o ponto principal.

A estética pixel art tem aquela qualidade granulada de Super Nintendo que dá uma nostalgia estranha mesmo em quem não cresceu nessa época. E o fato de ser curto é uma vantagem real: você consegue terminar numa tarde chuvosa e sair com aquela sensação boa de ter feito algo pequeno e completo.

5Animal Crossing: New Horizonsa ilha que espera por você

Nintendo · 2020 · Nintendo Switch

Trailer oficial — Animal Crossing: New Horizons

Coloco o Animal Crossing por último não porque seja o menos importante, mas porque é o mais diferente dos outros quatro: é o único aqui que roda em tempo real, sincronizado com o relógio do mundo, o que significa que jogar em dia de chuva em junho pode render coisas diferentes de jogar em dia de sol em dezembro.

New Horizons chegou em março de 2020 com timing que ninguém pediu mas todo mundo precisava — uma ilha deserta para decorar, vizinhos animalescos para cultivar amizade, peixinhos para pescar e insetos para colecionar. A Nintendo fez aqui um jogo de ritmo tão suave e deliberadamente sem pressão que se tornou quase medicinal para muita gente durante a pandemia.

A ressalva honesta: você precisa de um Nintendo Switch. Não tem versão PC, não tem versão PlayStation. É exclusivo mesmo. Mas se você tem o console, é o tipo de jogo que vale o preço só pela quantidade de tarde-chuvosa que ele consegue preencher com contentamento. E com a versão Switch 2 confirmada, pode ser um bom momento para (re)entrar na ilha.

Uma coisa que pouca gente sabe: Animal Crossing: New Horizons tem sistema de clima que espelha as estações reais do hemisfério norte — mas você pode mudar nas configurações do console para o hemisfério sul e ter as estações corretas para quem mora no Brasil. Vale ajustar antes de começar.

Cinco jogos, cinco tipos de silêncio que combinam melhor com chuva do que com sol.

Tem um que vai te pegar mais do que os outros — é assim com todo mundo, e eu nunca sei qual vai ser. O Stardew pode virar trezentas horas. O Spiritfarer pode virar um choro de meia hora que você não esperava. O A Short Hike pode acabar antes da tempestade passar.

Coloca a manta, faz o café. A chuva decide quanto tempo você tem.